sábado, 19 de setembro de 2009

Ficção e Realidade (ou Sob a Ponte de Heráclito)

por Gustavo Bernardo
Literatura e Ceticismo. Ed. AnnaBlume, pp. 88-92.

A distinção usual entre ficção e realidade é a de que o mundo da ficção contém muitas incertezas perigosas, enquanto o mundo da realidade contém as certezas de que precisamos para continuar vivendo. Entretanto, essa distinção talvez seja não apenas insuficiente, como inteiramente equivocada. Levanto a hipótese contrária à da distinção usual: o mundo da realidade é que conteria as incertezas mais perigosas, enquanto que o mundo da ficção conteria as certezas de que precisamos para sobreviver.

Para Umberto Eco, os textos ficcionais, à diferença do mundo e ainda quando ambíguos, explicitam uma margem muito clara de certeza, conduzindo-nos a um paradoxo interessante: a ficção desrealiza o real para criar um novo real mais seguro, portanto “mais real”, do que aquele que se encontrava no ponto de partida. Se prestarmos atenção na nossa vida cotidiana, tantas vezes a ficção se mostra mais real do que o real. Leio sobre a morte eterna de Antígona e me comovo por inteiro, como talvez não o faça quando morre uma pessoa da minha estima. Se morre alguém que existe de verdade e quero muito, demoro muito a realizar, isto é, a tornar real esta morte, quer porque preciso cuidar do velório e de outras pessoas que também estão sofrendo, quer porque ainda não suporto realizar a própria realidade. Se quem morre, todavia, é o personagem daquele livro em que embarquei suspendendo toda a descrença prévia, posso realizar a dor tão completamente que chego a fingir que é dor a dor que deveras sinto: vivo essa morte, se entendem o paradoxo, como se fosse mais real, ou seja, mais intensa, do que uma morte “real”.



Pode-se visualizar bem semelhante paradoxo no quadro de René Magritte, “A ponte de Heráclito”, pintado em 1935. Na imagem, a ponte supostamente real como que se interrompe no ar, ao tocar na névoa, não conduzindo quem a atravesse, ou quem esteja admirando o quadro, a lugar algum. O reflexo da ponte na água do rio, porém, mostra uma ponte completa, atravessando o rio. Temos certeza da imagem da ponte, mas não temos qualquer certeza da ponte ela mesma. Temos certeza do reflexo, do sintoma, da conseqüência, mas não podemos ter qualquer certeza da coisa que provoca o reflexo, da doença que gera o sintoma, da causa que produz a conseqüência. Como se trata da ponte de Heráclito, segundo o título que lhe deu o pintor, podemos ainda dizer que essa ponte incerta atravessa o rio que nos banhamos e no qual nunca somos os mesmos que fomos no primeiro banho, assim como o rio nunca é mais o mesmo, ou seja: trata-se de um rio que a rigor não existe, atravessado por uma ponte que a rigor também não existe, pintado por um pintor que a rigor não existiu e observado por espectadores que, a rigor e igualmente, não existem. Em palavras diretas: a rigor, não existimos.

O Eclipse da Razão

Uma inclinação que tire um homem da cidade e o leve para as margens de um rio ou para o topo de uma montanha seria irracional ou idiota, se julgada pelos padrões utilitaristas: ele estaria se dedicando a um passatempo tolo ou destrutivo. (p. 41).
(...)
Existe hoje um acordo quase geral em torno da idéia de que a sociedade nada perdeu com o declínio do pensamento filosófico, pois um instrumento muito mais poderoso de conhecimento tomou o seu lugar, a saber, o moderno pensamento científico. (p. 63).
(...)
Platão queria transformar os filósofos em governantes; os tecnocratas querem transformar os engenheiros em componentes do quadro de diretores da sociedade. (64).
(...)
Como qualquer credo existente, a ciência pode ser usada para servir às mais diabólicas forças sociais e o cientificismo não é menos limitado do que a religião militante. (p. 76).
(...)
A tarefa da reflexão crítica não é simplesmente compreender os diversos fatos em seu desenvolvimento histórico - e mesmo isso tem implicações incomensuravelmente maiores do que o escolaticismo positivista jamais sonhou - mas também ver através da noção do próprio fato, em seu desenvolvimento e, portanto, em sua relatividade. (pp. 86-87).
(...)
O crime do intelectuais modernos contra a sociedade não reside tanto em seu distanciamento, mas no sacrifício que fazem das contradições e complexidades do pensamento, imolando-os às exigências do chamado senso comum a mentalidade habilmente manipulada deste século conserva a hostilidade do homem da caverna em relação ao estranho. Isso se manifesta nào só no ódio por aqueles que têm uma pele de cor diferente ou usam uma espécie diferente de roupa, mas também pelo pensamento estranho e fora do comum, ou melhor, pelo próprio pensamento em si mesmo, quanto este segue a verdade além das fronteiras delimitadas pelas exigências de uma determinada ordem social. O pensamento hoje é compelido a justificar-se apenas quanto ao seu uso por determinado grupo estabelecido e não quanto à verdade. (pp. 90-91).
(...)
Houve um tempo em que o Humanismo sonhou em unir a humanidade através de uma compreensão comum do seu destino. Pensou que poderia fazer surgir uma boa sociedade através da crítica teórica da prática contemporânea, que se encaminharia então para uma prática correta. Isso parece ter sido uma ilusão. (p. 95).
(...)
Se a razão é declarada incapaz de determinar os objetivos supremas da vida e deve contentar-se em reduzir tudo o que encontra a um mero instrumento, seu único objetivo remanescente é apenas a perpetuação de sua atividade de coordenação. Essa atividade era outrora atribuída ao "sujeito" autônomo. Contudo, o processo de subjetivação afetou todas as categorias filosóficas: não as relativizou e preservou-as numa unidade de pensamrnto melhor estruturada, mas reduziu-as ao status de fatos a serem catalogados. (p. 97).
(...)
A total transformação de todos os domínios do ser à condição de meios leva à liquidação do sujeito que presumivelmente deveria usá-los (...) A subjetivação, que exalta o sujeito, também o condena. (p. 98).
(...)
A dominação da natureza envolve a dominação do homem. (...) O que geralmente é indicado como objetivo - a felicidade do indivíduo, a riqueza e a saúde - ganha significação exclusivamente a partir da sua pontencialidade funcial. (Id.).
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Desde que a subjugação da natureza, dentro e fora do homem, não tem motivo significado, a natureza não é de fato transcendida ou reconciliada, mas simplesmente reprimida. A resistência e a revolta que emergem dessa repressão da natureza tem acossado a civilização desde os seus começos, tanto na forma de rebeliões sociais, como na forma de crime organizado e transtorno mental. Típicos da nossa era atual são a manipulação dessa revolta pelas forças predominantes da própria civilização e o uso da mesma como um meio de perpetuação das próprias condições que a provocam e contra as quais se insurge. A civilização como irracionalidade racionalizada integra a revolta da natureza como outro meio ou instrumento. (p. 99).
(...)
A sobrevivência - ou, digamos, o sucesso - depende da capacidade de adaptação do indivíduo às pressões que a sociedade exerce sobre ele. (p. 100).
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O triunfo da razão formalizada é também o triunfo de uma realidade que se confronta com o sujeito como algo absoluto e esmagador. (p. 101).
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Quanto mais artifícios inventamos para dominar a natureza, mais devemos nos submeter a eles se queremos sobreviver. (Id.)
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O homem tornou-se tão completamente livre que não precisa de padrões, exceto o seu próprio. Paradoxialmente, contudo, esse aumento de independência conduziu a um aumento de passividade (...) o indivíduo, purificado de todos os reíduos das mitologias, reage automaticamente de acordo com os padrões gerais de adaptação. (pp. 101-102)
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Antes de interpretar a multiplicação de escolhas como um aumento de liberdade, como fazem os entusiastas da produção em série, devemos levar em conta a pressão inseparável desse aumento e a mudança da qualidade que é concomitante a essa nova espécie de escolha. (p. 102).
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O acrécimo de liberdade trouxe uma mudança no caráter da liberdade. É como se as inúmeras leis, normas e instruções que devemos cumprir dirigissem o carro e não nós. (p. 103).
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Nossa espontaneidade foi substituída por uma disposição de espírito que nos obriga a descartar-nos de qualquer emoção ou idéia que possa diminuir nossa atenção às exigências impessoais que nos assaltam. (Id.).
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A humanidade moderna se submete a esse processo não como uma criança que tem uma confiança natural na autoridade, mas como um adulto que desiste da individualidade já adquirida. (p. 105).
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Os panfletos sobre como melhorar a linguagem, como compreender a música, como ser salvo etc., são escritos no mesmo estilo da propaganda dos laxativos. (Id.)
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Por um lado, a natureza foi despojada de todo valor ou significado intrínseco. Por outro, o homem foi despojado de todos os objetivos, exceto o de autoconservação. (p. 106).
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A época do poder industrial sem limites, ao eliminar as perspectivas de um passado estável e de um futuro que se desenvolvia a partir de relações de propriedade visivelmente permanentes, gerou o processo de liquidação do indivíduo. (p. 161).
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A fé na filosofia significa a recusa ao temor de que a capacidade de pensar possa ser tolhida de alguma maneira. (...) O que está faltando são homens que compreendam que são eles mesmos as vítimas e os executores da própria opressão. (p. 167).
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HORKHEIMER, Max. Eclipse da Razão. Ed. Centauro, 2007.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Por Uma História do Tempo Futuro

"Nenhuma cousa se pode prometer à natureza humana mais conforme o seu maior apetite, nem mais superior a toda sua capacidade, que a notícia dos tempos e sucessos futuros".

É deste modo que Antonio Vieira abre a sua História do Futuro: prometendo dizer as coisas que estão por vir, na intenção de "manifestar ao Mundo aqueles segredos ocultos e escuríssimos que não chega a penetrar o entendimento".

De acordo com Ernst Bloch, "todo ser humano, na medida em que almeja, vive o futuro".

* * *

Um sonhador sempre quer mais. A Utopia abre caminhos possíveis ao pensamento para que não se fique paralisado na obscuridade do instante. E é na "não impossibilidade" do sonho que a Utopia encontra oxigênio. A ficção utópica, de acordo com Marin, faz emergir a face de sombra da ordem estabelecida (Edson L. de SOUZA).

A criação se dá abrindo desontinuidades no fluxo do mesmo.

O querer mais, diferente, melhor se configura na criação ficcional como acionadores do espírito crítico da consciência de um determinado tempo (Idem). Outrossim, é o sonho do exílio: do espaço e do tempo desconhecido, o espaço-tempo outro.

De acordo com Edson Luiz de Souza:

"A força da Utopia sempre esteve no rumor crítico que produz, provocando a imaginação a sonhar com outros mundos".

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Enquanto horizonte de expectativas e de recusas, de temores e esperanças, o futuro de uma sociedade muito diz sobre ela. Não obstante, pensar hoje sobre o nosso futuro (ou seja, a nossa esperança - os nossos "sonhos diúrnos" - para/com o porvir) é levar a reflexão para sobre a estrutura axiológica de uma modernidade em desencanto: crise de sentidos, ética e moral, crise de futuro.

Se a representação de futuro imaginada por George Orwell à época do pós-segunda Guerra era o de um regime mundial totalitário e totalizante, representado pela BOTA PISANDO O ROSTO HUMANO - PARA SEMPRE, o futuro da hipermodernidade se mostra mais opaco e neblinado, mas nem por isso menos aterrador, muito pelo contrário.

Segundo Adauto Novais, vivemos a promessa caótica de um mundo que não é inteiramente humano e de um tempo que esqueceu o passado e perdeu de vista o horizonte futuro.

Diz Bloch que: "o futuro contém o temido ou o esperado. Estando de acordo com a intenção humana, contém somente o esperado". (…) "Unicamente em uma velha sociedade em declínio, como o Ociente atual, surge uma certa intenção parcial e efêmera no sentido apenas descendente".


BLOCH, Ersnt. O Princípio da Esperança. 3 vols. EDUERJ / Contraponto.
SOUZA, Edson Luiz de. Uma Invenção da Utopia. Ed. Lumme.
VIEIRA, Antônio. História do Futuro. (domínio público).

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Educação Pela Pedra


Educação. Cidadania. Conteúdo. Pedra. Lição. Aprender. Conhecer. Pedra. Voz. Diálogo. Troca. Pedra. Paulo Freire. Pedra. Entendimento. Pedra. Interdisciplinaridade. Diversidade. Tolerância. Pedra. Cartilha. Livro. Ler. Pedra. Moral. Pedra. Pedra. Pedra. Esclarecer. Engrandecer a Pedra. A Alma. Pedra. Aula. Forma. Formatar. Dar Forma de. Assujeitar a Pedra. Ser. Parede. Branco. Pedra. Professor x Pedra. Professor. Pedra. Voz. Multidão. Solidão. Vento. Pedra. Silêncio, Pedra! Copie, Pedra. Pedra. Respeito. Dinheiro. Desejo. Pedra.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

O Jardim Imperfeito

O primeiro pacto foi proposto pelo diabo a Jesus. Depois de obrigá-lo a jejuar durante 40 dias no deserto, ele o fez ver, num só instante, todos os reinos da Terra. Ele lhe disse então: Tudo isso depende de meu poder. Estou, contudo, pronto a cadê-lo a ti. Só peço em troca um único pequeno gesto: que tu me reconheças como mestre; se o fizeres, caber-te-á reinar. Mas Jesus respondeu: Não quero esse poder, pois só quero servir a Deus, e seu reino não é deste mundo.
(...)
O Segundo pacto foi proposto, no século XV, por um enviado do diabo, Menfistófeles, a um homem ambicioso e orgulhoso, mágico, necromântico e prestigiador, que se chamava Fausto e que tentava penetrar nos segredos da vida e da morte. Já que és curioso, disse o enviado do diabo, eu te proponho um negócio: terás acesso a todo o saber do mundo, nenhum enigma resistirá a ti. Em troca exijo somente uma coisa: ao cabo de 24 anos tu me pertencerás inteiramente, de corpo e alma. Diferentemente de Jesus, Fausto aceitou os termos do contrato. Desfrutou de um saber infinito e foi cercado de admiração unânime. No dia em que o contrato se expirava, o diabo foi buscar Fausto, que lançava em vão gritos de horror.
(...)
O terceiro pacto data da mesma época aproximadamente daquele de Fausto; mas ele tem uma particularidade: é que sua existência não foi revelada no momento em que entrou em vigor. A astúcia do diabo constitui dessa vez em deixar que a parte contratante, o Homem Moderno, ignorasse o contrato; em deixá-lo acreditar que ele obtinha novas vantagens graças a seus próprios esforços, e que não teria jamais de pagar. Dessa vez, o que o diabo oferecia não era mais o poder, nem o saber, mas o querer. O Homem Moderno teria a possibilidade de querer livremente, de adquirir o domínio de sua própria vontade e de levar a vida à sua maneira. O diabo acultava o preço da liverdade para que o homem tomasse gosto por ela e não mais quisesse renunciar-lhe em seguida - que se visse pois na obrigação de quitar sua dívida.
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TODOROV, Z. O Jardim Imperfeito. Edusp, pp. 11-12.

domingo, 31 de maio de 2009

Como Medir o Imensurável?

Between the pen and the paperwork, I'm sure there's be passion in the language.
(Big Space. Suzanne Vega)


Se eu tivesse agora que responder a esta pergunta, eu diria, quase que cometendo uma redundância inafiançável, que, como a balança do açougueiro mede a massa da carne, o imensurável simplesmente não pode ser mensurado. E diria mais: diria que a tentativa de objetivar em dados supostamente concretos os sentimentos humanos somente poderia (ou poderá) ser possível se pensarmos como Cézanne, que dizia poder pintar o cheiro de uma árvore. Captar, refletir, aprisionar, radiografar, dar forma estática ao fugidio é uma tarefa tão para-além da capacidade humana, e da sua ciência criatura, quanto tirar uma fotografia do vácuo. Pois que, então, Rachel Stolf, com seus ruídos brancos, na busca poética pelo nada definitivo, me diz: cá está o nada, o vácuo, o esquecimento. Petroc Sesti é outro quem me apresenta o "perpétuo vácuo", do mesmo modo que Simon e Garfunkel me cantam o Som do Silêncio.


Rachel Stolf, 2002.


E, assim, Sartre me mostra a angústia, Dostoiévski o amargor dos homens supérfluos, e Ballard, com precisão cirúrgica, o vazio existencial do homem hipermoderno. E se tivesse agora que responder a tal pergunta, diria que é preciso apagar do computador os programas que combinam dados e vomitam estatísticas, fechar os olhos para ver o silêncio, tampar os ouvidos para ouvir o esquecimento e abrir bem os olhos para sentir o cheiro das árvores.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Diálogo Acerca do Parque Humano

O que ainda domestica o homem se o humanismo naufragou como escola da domesticação humana? O que domestica o homem se seus esforços prévios de autodomesticação só conduziram, no fundo, aa sua tomada de poder sobre todos os seres? O que domestica o homem se em todas as experiências prévias com a educação do gênero humano permaneceu obscuro quem ou o quê educa os educadores, e para quê? Ou será que a pergunta pelo cuidado e a formação do ser humano não se deixa mais formular de modo pertinente no campo das meras teorias da domesticação e educação?


Peter Sloterdijk. Regas para um Parque Humano. Estação Liberdade, p. 32.


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Cientistas renegados ou loucos totalitários não são as pessoas mais capazes de abusar da engenharia genética. Eu e você somos - não porque sejamos maus, mas porque queremos fazer o bem. Num mundo dominado pela competição, os pais compreensivelmente vão querer dar a seus filhos todas as vantagens... A maneira mais provável pela qual a eugenia vai entrar em nossas vidas é pela porta da frente, quando pais ansiosos, submergidos na publicidade, no marketing, nas modas, começarem a lutar para assegurar que seus rebentos não fiquem para trás na corrida genética.


Arthur Caplan. What Should the Rules Be?. Time. p. 36.


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Depois da morte de Deus e do desmoronamento das utopias, sobre qual base intelectual e moral queremos construir nossa vida comum?


Z. Todorov. O Espírito das Luzes. Barcarolla, p. 9.


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Como haveremos de nos consolar, nós, os algozes dos algozes? (...) Quem nos limpará desse sangue? Qual água nos lavará? Que solenidades de desagravo, que jogos sagrados haveremos de inventar? A grandiosidade desse ato não será demasiada para nós?


F. Nietzche. A Gaia Ciência, § 125.


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Ian Malcolm - Deus cria dinossauros. Deus mata dinossauros. Deus cria o homem. O homem mata Deus. O homem cria dinossauros...

Ellie Sattler - ... dinossauros comem homem.


Michael Crichton. Jurassic Park.


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Somos criaturas brutas, apenas semi-acabadas quando nos falta alguém mais sábio, melhor do que nós mesmos, para ajudar-nos no aperfeiçoamento da própria na natureza - débil e falha (...) Aprenda, pelo menos pelo meu exemplo, o perigo que representa a assimilação indiscriminada da ciência, e quanto é mais feliz o homem para quem o mundo não vai além do ambiente cotidiano, do que aquele que aspira tornar-se maior que a sua natureza lhe permite (...) Eu seria o primeiro a romper os laços entre a vida e a morte, fazendo jorrar uma nova luz nas trevas do mundo.


Mary Shelley. Frankenstein. L&PM, pp. 32-56.


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Não há dúvida alguma de que a superioridade do homem reside no saber (...) Não passa de simples opinião nossa a de que dominamos a natureza; estamos submetidos a seu jugo. Porém, se nos deixássemos guiar por ela na invenção, nós a teríamos, na práxis, a nosso mando.


Francis Bacon

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Desde sempre a Razão seguiu o objetivo de livrar os homens do medo e de fazer deles senhores. Mas, completamente iluminada, a terra resplandesce sob o signo da calamidade triunfal.


Adorno e Horkheimer. Dialética do Aukflarung.


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Oito vítimas de bullying... uma delas se matou.


Capa da Revista Marie Clarie inglesa, março de 2002.


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Crianças norte-americanas dentre 8 e 15 anos identificam o bullying como um problema maior que o racismo e as pressões para fazer sexo ou consumir álcool e drogas.


Fonte: Does bullying cause emotional problems? A prospective study of young teenagers. BMJ. 2001; 323: 480-4.


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Vou botar no cu da tua mãe.


Aluno de 12 anos que vive com a mãe e que, segundo ele, a ama, pedindo a uma colega que o desse lincença.


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Espera aí, professor. Deixa eu terminar de copiar a matéria.


O mesmo aluno, após eu pedir que ele se levantasse.


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O que ainda domestica o homem se o humanismo naufragou como escola da domesticação humana? O que domestica o homem se seus esforços prévios de autodomesticação só conduziram, no fundo, aa sua tomada de poder sobre todos os seres? O que domestica o homem se em todas as experiências prévias com a educação do gênero humano permaneceu obscuro quem ou o quê educa os educadores, e para quê? Ou será que a pergunta pelo cuidado e a formação do ser humano não se deixa mais formular de modo pertinente no campo das meras teorias da domesticação e educação?


Sloterdijk. Op. Cit.

Sonhos Diurnos

O desejo de ser as coisas melhorarem não adormece. Nunca nos livramos do desejo, ou então nos livramos apenas ilusoriamente. Seria mais cômodo esquecer esse anseio do que realizá-lo, mas para onde isso levaria hoje? Os desejos ainda assim não cessariam, ou se travestiriam em novos, ou até nós, os sem-desejo, seríamos os cadáveres que os maus pisariam no caminho para a sua vitória. Não é hoje de desistir dos desejos. Os que sofrem privação sequer pensam nisso: eles sonham que seus desejos um dia serão realizados. Sonham com isso, como diz a expressão coloquial, dia e noite, portanto não só aa noite. Isso também seria muito estranho, já que o dia é o momento em que a privação e o desejar mais se fazem presentes. Há sonhos diurnos em número suficiente, só não foram satisfatoriamente observados. Mesmo de olhos abertos, no seu íntimo a pessoa pode ver tudo colorido ou em forma de sonho. Se a propensão para melhorar aquilo que nos tornamos não adormece nem durante o sono, como o poderia durante a vigília? Poucos são os desejos que não estão carregados de sonho, justamente quando eles tomam consciência de si. Mas, então, quem sonha durante o dia é visivelmente diferente de quem sonha durante a noite. Muitas vezes, quem devaneia segue um fogo-fátuo, desvia-se do caminho. Mas ele não dorme e não submerge na névoa.

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Por quanto tempo o nosso interior impulsiona só para a frente? O desejar quer alguma coisa, não ocorre de um modo qualquer, raramente aflige sem razão. Porém, se ele se apressa em aterrissar, o impulso que nele opera consegue atingir seu alvo? Por algum tempo, num primeiro momento, talvez o impulso e qualquer apetite possam ser surpreendentemente saciados. Não há nada que deixe o saciado mais indiferente que um pedaço de pão e para o curioso não há nada mais ultrapassado que o jornal que acabou de ler. Contudo, nos bastidores, tudo se levanta outra vez. Começando com a fome, não há desejo arrefecido. E também as imagens pintadas diante dos olhos por um desejo que está se saciando aas vezes param no ar como se não pudessem baixar até o chão. O desejo e a vontade voltados para eles continuam vivos, eles mesmos continuam vivos. Também os sonhos realizáveis, quando aterrissam em solo plano, nem sempre chegam inteiros: frequentemente, um resquício fica pra trás. Ele é diáfano como o ar, como o vento. Todavia, é perceptível, é mais forte que a carne. Um homem espera pela moça, o quarto está cheio de inquietação carinhosa, a última luz do anoitecer está nele, aumentando a expectativa. Contudo, quando a esperada ultrapassa o limiar e tudo fica bem, tudo está aí, o próprio esperar não está mais presente, desapareceu. Ele nada mais tem a dizer e, ainda assim, levou algo consigo, algo que não repercute na alegria existente. A satisfação completa é rara, provavelmente nunca ocorreu. No sonho de algo, antes de regozijar-se o coração, tudo era melhor ou parecia ser.

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Imaginar-se rumando para o melhor sucede, num primeiro momento, apenas interiormente. É um indicativo de quanta juventude reside no ser humano, quanta coisa há nele a esperar. Esse esperar não quer adormecer, por mais que tenha sido enterrado: nem mesmo no caso do desesperado ele tem os olhos totalmente fixados no nada. Até o suicida se refugia na negação como se fosse um colo: ele espera o sossego. Inclusive a esperança frustrada vagueia por aí atormentando, qual fantasma que não encontra o caminho de volta para o cemitério, e anda atrás de imagens refutadas. Ela não desaparece por si mesma, mas somente dando-se uma nova forma. O que caracteriza o amplo espaço da vida ainda abera e ainda incerta do ser humano é a possibilidade de assim velejar em sonhos, que são possíveis sonhos diurnos, muitas vezes do tipo totalmente sem base na realidade. O ser humano fabula desejos: é capaz disso e em si mesmo encontra material suficiente, mesmo que nem sempre seja o melhor, o mais durável. Esse fermentar e efervescer acima da consciência constituída é o primeiro correlato da fantasia, que principalmente é apenas interior, situado no interior de si mesma. Mesmo os sonhos mais idiotas existem ao menos em forma de bolhas de espuma e os sonhos diurnos até contém uma espuma da qual aas vezes já surgiu uma Vênus. Em parte alguma o animal conhece isso: somente o ser humano, que, embora muito mais desperto, entra em efervescência utópica. É como se sua existência fosse menos impermeável, apenas de, comparada com a da planta e a do animal, ser muito mais intensa. Não obstante, a existência humana possui um ser mais em fermentação, mais alvorescente na sua borda e orla superior. É como se aqui algo tivesse ficado oco, um novo espaço vazio teria acabado de surgir. É nele que se movem os sonhos, e no seu interior circula o possível que talvez nunca poderá se tornar exterior.

BLOCH, Ernst. O Princípio da Esperança vol 1. Ed. UERJ, pp. 79-177-194.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Pensar é Transpor

Pensar significa transpor. Contudo, de tal maneira que aquilo que está aí não seja ocultado nem omitido. Nem na sua necessidade, nem mesmo no movimento para superá-la. Nem nas causas da necessidade, nem mesmo no princípio da virada que nela está amadurecendo. Por essa razão, a transposição efetiva não vai em direção ao mero vazio de algum diante-de-nós, no mero entusiasmo, apenas imaginando abstratamente. Ao contrário, ela capta o novo como algo mediado pelo existente em movimento, ainda que, para ser trazido aa luz, exija ao extremo a vontade que se dirige para ela. A transposição efetiva conhece e ativa a tendência de curso dialético instalada na história. Em primeiro lugar, todo ser humano, na medida em que almeja, vive do futuro: o que passou vem só mais tarde, e o presente autêntico praticamente ainda não está aí. O futuro contém o temido ou o esperado e, estando de acordo com a intenção humana, portanto sem malogro, contém somente o esperado. A função e o conteúdo da esperança são incessantemente experimentados e, em tempos de sociedade em ascenção, foram incessantemente acionados e difundidos. Unicamente em uma velha sociedade em declínio, como o Ocidente atual, surge uma certa intenção parcial e efêmera no sentido apenas descendente. Então, para aqueles que não conseguem achar uma saída para a decadência, o medo se antepõe e se contrapõe aa esperança. O medo se apresenta como máscara subjetivista e o niilismo, como máscara objetivista do fenômeno da crise: fenômeno suportado, mas não compreendido; lamentado, mas não removido.

BLOCH, Ernst. O Princípio da Esperança vol 1. Ed. UERJ, pp. 14-15.