Uma inclinação que tire um homem da cidade e o leve para as margens de um rio ou para o topo de uma montanha seria irracional ou idiota, se julgada pelos padrões utilitaristas: ele estaria se dedicando a um passatempo tolo ou destrutivo. (p. 41).
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Existe hoje um acordo quase geral em torno da idéia de que a sociedade nada perdeu com o declínio do pensamento filosófico, pois um instrumento muito mais poderoso de conhecimento tomou o seu lugar, a saber, o moderno pensamento científico. (p. 63).
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Platão queria transformar os filósofos em governantes; os tecnocratas querem transformar os engenheiros em componentes do quadro de diretores da sociedade. (64).
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Como qualquer credo existente, a ciência pode ser usada para servir às mais diabólicas forças sociais e o cientificismo não é menos limitado do que a religião militante. (p. 76).
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A tarefa da reflexão crítica não é simplesmente compreender os diversos fatos em seu desenvolvimento histórico - e mesmo isso tem implicações incomensuravelmente maiores do que o escolaticismo positivista jamais sonhou - mas também ver através da noção do próprio fato, em seu desenvolvimento e, portanto, em sua relatividade. (pp. 86-87).
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O crime do intelectuais modernos contra a sociedade não reside tanto em seu distanciamento, mas no sacrifício que fazem das contradições e complexidades do pensamento, imolando-os às exigências do chamado senso comum a mentalidade habilmente manipulada deste século conserva a hostilidade do homem da caverna em relação ao estranho. Isso se manifesta nào só no ódio por aqueles que têm uma pele de cor diferente ou usam uma espécie diferente de roupa, mas também pelo pensamento estranho e fora do comum, ou melhor, pelo próprio pensamento em si mesmo, quanto este segue a verdade além das fronteiras delimitadas pelas exigências de uma determinada ordem social. O pensamento hoje é compelido a justificar-se apenas quanto ao seu uso por determinado grupo estabelecido e não quanto à verdade. (pp. 90-91).
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Houve um tempo em que o Humanismo sonhou em unir a humanidade através de uma compreensão comum do seu destino. Pensou que poderia fazer surgir uma boa sociedade através da crítica teórica da prática contemporânea, que se encaminharia então para uma prática correta. Isso parece ter sido uma ilusão. (p. 95).
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Se a razão é declarada incapaz de determinar os objetivos supremas da vida e deve contentar-se em reduzir tudo o que encontra a um mero instrumento, seu único objetivo remanescente é apenas a perpetuação de sua atividade de coordenação. Essa atividade era outrora atribuída ao "sujeito" autônomo. Contudo, o processo de subjetivação afetou todas as categorias filosóficas: não as relativizou e preservou-as numa unidade de pensamrnto melhor estruturada, mas reduziu-as ao status de fatos a serem catalogados. (p. 97).
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A total transformação de todos os domínios do ser à condição de meios leva à liquidação do sujeito que presumivelmente deveria usá-los (...) A subjetivação, que exalta o sujeito, também o condena. (p. 98).
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A dominação da natureza envolve a dominação do homem. (...) O que geralmente é indicado como objetivo - a felicidade do indivíduo, a riqueza e a saúde - ganha significação exclusivamente a partir da sua pontencialidade funcial. (Id.).
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Desde que a subjugação da natureza, dentro e fora do homem, não tem motivo significado, a natureza não é de fato transcendida ou reconciliada, mas simplesmente reprimida. A resistência e a revolta que emergem dessa repressão da natureza tem acossado a civilização desde os seus começos, tanto na forma de rebeliões sociais, como na forma de crime organizado e transtorno mental. Típicos da nossa era atual são a manipulação dessa revolta pelas forças predominantes da própria civilização e o uso da mesma como um meio de perpetuação das próprias condições que a provocam e contra as quais se insurge. A civilização como irracionalidade racionalizada integra a revolta da natureza como outro meio ou instrumento. (p. 99).
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A sobrevivência - ou, digamos, o sucesso - depende da capacidade de adaptação do indivíduo às pressões que a sociedade exerce sobre ele. (p. 100).
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O triunfo da razão formalizada é também o triunfo de uma realidade que se confronta com o sujeito como algo absoluto e esmagador. (p. 101).
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Quanto mais artifícios inventamos para dominar a natureza, mais devemos nos submeter a eles se queremos sobreviver. (Id.)
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O homem tornou-se tão completamente livre que não precisa de padrões, exceto o seu próprio. Paradoxialmente, contudo, esse aumento de independência conduziu a um aumento de passividade (...) o indivíduo, purificado de todos os reíduos das mitologias, reage automaticamente de acordo com os padrões gerais de adaptação. (pp. 101-102)
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Antes de interpretar a multiplicação de escolhas como um aumento de liberdade, como fazem os entusiastas da produção em série, devemos levar em conta a pressão inseparável desse aumento e a mudança da qualidade que é concomitante a essa nova espécie de escolha. (p. 102).
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O acrécimo de liberdade trouxe uma mudança no caráter da liberdade. É como se as inúmeras leis, normas e instruções que devemos cumprir dirigissem o carro e não nós. (p. 103).
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Nossa espontaneidade foi substituída por uma disposição de espírito que nos obriga a descartar-nos de qualquer emoção ou idéia que possa diminuir nossa atenção às exigências impessoais que nos assaltam. (Id.).
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A humanidade moderna se submete a esse processo não como uma criança que tem uma confiança natural na autoridade, mas como um adulto que desiste da individualidade já adquirida. (p. 105).
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Os panfletos sobre como melhorar a linguagem, como compreender a música, como ser salvo etc., são escritos no mesmo estilo da propaganda dos laxativos. (Id.)
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Por um lado, a natureza foi despojada de todo valor ou significado intrínseco. Por outro, o homem foi despojado de todos os objetivos, exceto o de autoconservação. (p. 106).
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A época do poder industrial sem limites, ao eliminar as perspectivas de um passado estável e de um futuro que se desenvolvia a partir de relações de propriedade visivelmente permanentes, gerou o processo de liquidação do indivíduo. (p. 161).
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A fé na filosofia significa a recusa ao temor de que a capacidade de pensar possa ser tolhida de alguma maneira. (...) O que está faltando são homens que compreendam que são eles mesmos as vítimas e os executores da própria opressão. (p. 167).
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HORKHEIMER, Max. Eclipse da Razão. Ed. Centauro, 2007.