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17/03/2015

de passagem #20

Uma obra crítica ou filosófica que não se mantém de alguma maneira numa relação essencial com a criação, está condenada a girar no vazio, assim como uma obra de arte ou de poesia, que não contém em si uma exigência crítica, está destinada ao esquecimento.
Agamben. Nudez, p. 15.

21/02/2015

de passagem #19

A arte que dá ao obscuro uma expressão lúcida não o torna claro, mas torna-lhe clara a obscuridade.
Pessoa. Escritos sobre Génio e Loucura, T. I, p. 381.

27/08/2014

sofrimento, poesia, alegria

Moacyr Félix
[...] para mim, o sofrimento é muito importante, o sofrimento existe como motivação na medida em que leva o homem a lutar consigo mesmo, ou seja, o homem é um ser que resulta da negação do não-ser na medida em que tem consciência daquilo que ele não é, ou não pode ser, ou do que pulsa dentro dele: a morte, o mistério, o acaso. Eu luto contra a dor para conquistar esse não-ser de que tenho consciência, ou seja, como diz Marx no quarto capítulo de O capital, somente o homem tem a consciência de que é necessário resgatar a humanidade de que o privaram. De repente ele se vê amputado do ser que ele devia ser e toma a consciência desse ser do qual foi exilado. Então ele passa a ser movido pela melancolia, a solidão, o desespero, o sofrimento. Toda a minha poesia é impulsionada por isso e, na medida em que sou impelido por isso, sonho com a utopia que o nosso Gullar chama de alegria, isto é, um sentimento de que seremos irmãos de nossos semelhantes e passaremos a viver em comunhão. Sendo assim, tomo-me cúmplice desse movimento que nos leva a fazer com que a alegria apareça dessa forma. 
Moacyr Félix, Poesia Sempre, ano 6, n. 9, 1998.

06/06/2014

efeito de sujeito

O sujeito não é mais do que um rápido efeito que se perde em seguida, ele não goza de nenhuma constância, ao contrário do eu que é imagem enganosa surgida no espelho como a promessa, nunca inteiramente cumprida, de permanecer sempre a mesma. O sujeito é efeito de um ato que se dá numa trajetória, num circuito que necessita do outro, o convoca e só com ele se completa.
Tania Rivera.

08/05/2014

de passagem #18

O poeta é senhor da história, podendo se aproximar dos acontecimentos tanto quanto queira.
G. E. Lessing.

02/04/2014

revolução, despossessão, diferença

Se não há revolução sem transformação de valores sobre os quais o Ocidente se construiu, é contra a lógica que é preciso se opor, é sobre as palavras que é preciso agir. A ação social não basta. Liberar-se da lógica imposta pelo uso cotidiano da linguagem é radicalizar a revolução até a despossessão de si (despossessão dos costumes e das práticas próprias ao Ocidente) que desfaz o núcleo de todas as identidades.

Shoji Ueda

A revolução exige este trabalho de si sobre si que insere a diferença na identidade.


M. Crépon, Les Promesses du Langage.

29/03/2014

crítica

A verdadeira operação crítica surge [da] união radical entre destruição e salvação: ao arrancar as palavras e as obras do contexto lenitivo que, às vezes o próprio autor, e, quase sempre, a história [...] tradicional se apressam em lhes emprestar, a crítica quebra sua unidade factícia e, simultaneamente, expõe sua força de estranheza e subversão.
J. M. Gagnebin.

07/03/2014

Ruína

Um monge descabelado me disse no caminho: “Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. Minha ideia era de fazer alguma coisa ao jeito de tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas de um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro. (O olho do monge estava perto de ser um canto). Continuou: digamos a palavra AMOR. A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo”. E o monge se calou descabelado.
Manoel de Barros.

05/09/2013

de passagem #15

É verdade, todavia, que uma coisa é ainda mais instrutiva: a espantosa inexatidão provável da observação imediata, a falsificação que é obra de nossos olhos. Observar é, em grande parte, imaginar o que esperamos ver.
Valéry. Degas Dança Desenho, 2012, p. 23.

18/08/2013

de passagem #14

Toda grande obra nasce de uma circunstância e, ao mesmo tempo, contra esta circunstância.
Miguel Sanches Neto.

19/03/2013

pessimismo revolucionário

Este pessimismo não quer dizer aceitação resignada do pior; significa que não confiamos no "curso natural da história", que nos preparamos para nadar na contracorrente, sem certeza de vitória. Não é a crença teleológica em um triunfo rápido e certo que motiva o revolucionário, mas a convicção profundamente enraizada de que não se pode viver como um ser humano digno desse nome sem combater com pertinácia e vontade inabalável a ordem estabelecida.

Michael Löwy, A Estrela da Manhã, p. 16.

15/10/2012

Contingências

A vida na hora
cena sem ensaio
corpo sem medida
cabeça sem reflexão.

Não sei o papel que desempenho
só sei que é meu, impermutável.

De que trata a peça
devo adivinhar já em cena.

[Wilsawa Szymborska, A Vida na Hora]

   *   *   *

Vê, eu vivo. De quê? Nem a infância nem o futuro minguam...

Inúmera, a existência
transborda-me do coração.

[R. M. Rilke, Nova Elegia a Duíno]

28/05/2012

comptine d'un autre été


Bela versão, em cenário igualmente belo, da lindíssima comptine d'un autre été, do Yann Tiersen.
Não sei o nome da arpista, mas sua página no youtube é: http://www.youtube.com/user/FreakyH0t

12/05/2012

degas e valéry: muito além da pintura

É preciso ter uma ideia elevada, não do que se faz, mas do que se poderá fazer um dia; sem o quê não vale a pena trabalhar.
E. Degas


Eis o verdadeiro orgulho, antídoto de toda vaidade.
Como o jogador perseguido por combinações de partidas, assombrado à noite pelo espectro do tabuleiro de xadrez ou do feltro onde as cartas são lançadas, obcecado por imagens táticas e soluções mais vivas que reais, assim o artista é essencialmente um artista.
Um homem que não é possuído por uma presença dessa intensidade é um homem desabitado: um terreno baldio.
P. Valéry (sobre a frase de Degas)

Degas, dança, desenho, 2003, p. 121-122.

15/11/2010

la geometria de la conciencia

Rachel Stolf

Não, a alma não fica com cicatrizes. A bala entrará por um ouvido da humanidade e sairá pelo outro.
(Karl Kraus)

21/07/2010

sobre colecionar borboletas

A nova etapa da consciência musical se define pela negação e pela rejeição do prazer pelo próprio prazer. Assemelha-se tal fenômeno ao comportamento que as pessoas soem manter em face dos esportes e da propaganda. As expressões "prazer artístico" e "gosto artístico" assumiram um significado curioso e cômico. (...) Ainda que alguém se deliciasse com os belos trechos de um quarteto de Schubert ou com um provocantemente sadio "concerto grosso" de Handel, seria catalogado como um defensor suspeito da cultura, bem abaixo dos colecionadores de borboletas. (Adorno).

Clique na imagem para deliciar-se com Handel 

24/06/2010

cotidianidade



Passos molhados se desviam sob sombras projetadas por guarda-chuvas. Poças, sapatos e asfalto. Pernas, relógios, pressas e grilhões. A infinidade de sons adormece os ouvidos e a aflição de destinos entrecruzados é nada além de estática, inércia, calmaria e o cumprimento de um dever religioso e inquestionado.


leia todo o texto aqui: sombras e perspectivas
desenho: http://annacorina.wordpress.com/2009-2/

13/06/2010

de passagem #1

Vagueando por aqueles ermos gelados, desconfiava que era o cansaço de ver o mundo que o envelhecia, com as pálpebras sempre querendo se fechar para apagar a solidão, tornando-se cada dia mais temedroso de dormir, com receio de que os sonhos o acordassem sem qualquer notícia do amanhã, pois já sentia cega até a memória dos seus ontens. (Berredo de Menezes).


[o desenho é meu. se for copiar, avise]