Os filósofos costumam colocar-se diante da vida e da experiência como diante de uma pintura, que está desenrolada de uma vez por todas e como inalterável firmeza mostra o mesmo evento: esse evento, pensam eles, é preciso interpretá-lo corretamente, para com isso tirar uma conclusão sobre o ser que produziu a pintura: portanto, sobre a coisa em si, que sempre costuma ser considerada como razão suficiente do mundo do fenômeno. Em contrapartida, lógicos mais rigorosos (…) puseram em questão toda conexão entre o mundo metafísico e o mundo que nos é conhecido: de tal modo que no fenômeno, justamente, a coisa em si não aparece. De ambos os lados, porém, não é levada em conta a possibilidade de que essa pintura – aquilo que agora, para nós homens, se chama vida e experiência – pouco a pouco veio a ser e, aliás, está ainda em pleno vir-a-ser e por isso não deve ser considerada como grandeza firme. (…) É porque nós, desde milênios, temos olhado para o mundo com pretensões morais, estéticas, religiosas, com cega inclinação, paixão ou medo, e porque temos regalado nos maus hábitos do pensamento ilógico, que esse mundo pouco a pouco veio a ser tão maravilhosamente colorido, apavorante, profundo de significação, cheio de alma; ele adquiriu cores – mas somos nós os coloristas: o intelecto humano fez apenas aparecer o fenômeno e transpôs para as coisas suas concepções fundamentais errôneas.
NIETZSCHE. Humano, Demasiado Humano. Cap. I, § 16.

