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16/10/2010

somos nós os coloristas

Os filósofos costumam colocar-se diante da vida e da experiência como diante de uma pintura, que está desenrolada de uma vez por todas e como inalterável firmeza mostra o mesmo evento: esse evento, pensam eles, é preciso interpretá-lo corretamente, para com isso tirar uma conclusão sobre o ser que produziu a pintura: portanto, sobre a coisa em si, que sempre costuma ser considerada como razão suficiente do mundo do fenômeno. Em contrapartida, lógicos mais rigorosos (…) puseram em questão toda conexão entre o mundo metafísico e o mundo que nos é conhecido: de tal modo que no fenômeno, justamente, a coisa em si não aparece. De ambos os lados, porém, não é levada em conta a possibilidade de que essa pintura – aquilo que agora, para nós homens, se chama vida e experiência – pouco a pouco veio a ser e, aliás, está ainda em pleno vir-a-ser e por isso não deve ser considerada como grandeza firme. (…) É porque nós, desde milênios, temos olhado para o mundo com pretensões morais, estéticas, religiosas, com cega inclinação, paixão ou medo, e porque temos regalado nos maus hábitos do pensamento ilógico, que esse mundo pouco a pouco veio a ser tão maravilhosamente colorido, apavorante, profundo de significação, cheio de alma; ele adquiriu cores – mas somos nós os coloristas: o intelecto humano fez apenas aparecer o fenômeno e transpôs para as coisas suas concepções fundamentais errôneas.

NIETZSCHE. Humano, Demasiado Humano. Cap. I, § 16.

06/08/2010

o mais pesado dos pesos

Pensamentos, enfim, passageiros. Neblina distante sobre a qual tem-se alguma impressão, algum cheiro. Pensamentos, enfim, transeuntes. Escorrendo assimétricos e constantes pela inalcançável cama do tempo. Reclinando-se, sem conforto, na ingratidão transcendental. 
Nossos dedos, nossas janelas, nossos pelos. Nossas camas, mulheres e manhãs. Todas as coisas que nos faltam, em ciranda perversa. Sem mãos e de mãos dadas girando em sentido horário. Perverso relógio.
Nossos rituais, carnavais e cervejas. Nossas calças diárias, orgasmos e cigarros. Temperos e condimentos, e ingredientes sem sabor. Entrechocando-se em harmonia estranha no caldeirão da vida, do mundo, do espaço-tempo. 
A mão invisível da fortuna nos há de preparar. Mas quem há de comer? Quem há de nos saborear e saboreia neste cruel e inacabado ainda-não? 
A mão gorda da fortuna nos girando em... sentido... horário... zunindo, altiva, Ode To Joy.

24/06/2010

de passagem #4


O que é a verdade, afinal? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões das quais se esqueceu que o são. (Nietzsche)