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17/03/2015

de passagem #20

Uma obra crítica ou filosófica que não se mantém de alguma maneira numa relação essencial com a criação, está condenada a girar no vazio, assim como uma obra de arte ou de poesia, que não contém em si uma exigência crítica, está destinada ao esquecimento.
Agamben. Nudez, p. 15.

08/05/2014

de passagem #18

O poeta é senhor da história, podendo se aproximar dos acontecimentos tanto quanto queira.
G. E. Lessing.

02/04/2014

revolução, despossessão, diferença

Se não há revolução sem transformação de valores sobre os quais o Ocidente se construiu, é contra a lógica que é preciso se opor, é sobre as palavras que é preciso agir. A ação social não basta. Liberar-se da lógica imposta pelo uso cotidiano da linguagem é radicalizar a revolução até a despossessão de si (despossessão dos costumes e das práticas próprias ao Ocidente) que desfaz o núcleo de todas as identidades.

Shoji Ueda

A revolução exige este trabalho de si sobre si que insere a diferença na identidade.


M. Crépon, Les Promesses du Langage.

05/09/2013

de passagem #15

É verdade, todavia, que uma coisa é ainda mais instrutiva: a espantosa inexatidão provável da observação imediata, a falsificação que é obra de nossos olhos. Observar é, em grande parte, imaginar o que esperamos ver.
Valéry. Degas Dança Desenho, 2012, p. 23.

11/06/2013

ficção e realidade #3

[...] a própria ideia de que sob a aparência enganadora oculta-se uma Coisa Real definitiva, horrível demais para que a possamos encarar diretamente, é a aparência definitiva - a Coisa Real é um espectro cuja presença garante a consistência de nosso edifício simbólico, permitindo-nos evitar sua inconsistência constitutiva.
Slavoj Zizek.

19/03/2013

pessimismo revolucionário

Este pessimismo não quer dizer aceitação resignada do pior; significa que não confiamos no "curso natural da história", que nos preparamos para nadar na contracorrente, sem certeza de vitória. Não é a crença teleológica em um triunfo rápido e certo que motiva o revolucionário, mas a convicção profundamente enraizada de que não se pode viver como um ser humano digno desse nome sem combater com pertinácia e vontade inabalável a ordem estabelecida.

Michael Löwy, A Estrela da Manhã, p. 16.

07/05/2012

porta entre-aberta



Todo sonho permanece sendo sonho pelo fato de ter tido muito pouco êxito, de ter conseguido levar pouca coisa a termo. Por isso, ele não pode esquecer o que falta, e mantém a porta aberta em relação a todas as coisas. A porta no mínimo entreaberta, quando se dirige para objetos agradáveis, chama-se esperança. Sendo que não há esperança sem angústia nem angústia sem esperança; ambas se mantêm mutuamente em suspenso, por mais que a esperança prepondere para o valente, por meio do valente. No entanto, também ela, sendo possivelmente ilusória, por qual fogo-fátuo, deve ser uma esperança sabedora, uma em si mesma previamente refletida.

Ernst Bloch. O Princípio Esperança I, p. 326.

25/03/2012

ficção e realidade #2

Vivemos num mundo governado por ficções de toda espécie. O merchandising de massa, a publicidade, a política conduzida como um ramo da propaganda, a tradução instantânea da ciência e da tecnologia em imagens populares, a crescente mistura e interpenetração de identidades no reino dos bens de consumo, de apropriação pela televisão de qualquer resposta imaginativa livre ou original à experiência. Nossa vida é uma grande novela. Para o escritor, em particular, torna-se cada vez menos necessário inventar o conteúdo ficcional de sua obra. A ficção já está aí. A tarefa do escritor é inventar a realidade. No passado, sempre consideramos que o mundo exterior em torno de nós representava a realidade, por mais incerta ou confusa que fosse, e que o mundo interior de nossas mentes, seus sonhos, esperanças e ambições, representava o reino da fantasia e da imaginação. Esses papéis, também, me parecem, foram invertidos. O mais prudente e efetivo método de lidar com o mundo ao nosso redor é assumir que ele é uma ficção completa, e, inversamente, que o único e pequeno núcleo de realidade que nos resta está no interior das nossas próprias cabeças. A clássica distinção de Freud entre conteúdos manifesto e latente do sonho, entre o aparente e o real, precisa agora ser aplicada ao mundo externo da assim chamada realidade.


J. C. Ballard. 

19/01/2012

subjetividade & literatura

Nesta obra reúnem-se 17 estudos que transitam entre História, Letra e Literatura, Antropologia e Sociologia, Psicologia e Psicanálise, Filosofia e Comunicação, traçando uma complexa e delicada trama que consolidará argumentos e temas de muito interesse para o leitor da atualidade. [...]
Como frisou Sérgio Buarque de Holanda, em um belíssimo texto intitulado Apologia da História, "é que para o verdadeiro historiador há de importar primeiramente o esforço para a boa inteligência da hora presente, se quiser entender o passado. E, por outro lado, qualquer valorização sentimental do passado, valorização que só poderá ser fragmentada e caprichosa - nos levaria a vê-lo com as cores de nossa nostalgia". Os textos presentes nesta coletânea rica em diversidade e conhecimentos representam certamente, parodiando Sérgio Buarque, o esforço para a boa inteligência da hora presente.

Tania Bessone

10/12/2011

escrever e a ausência de si

O escritor já não pertence ao domínio magistral em que exprimir-se significa exprimir a exatidão e a certeza das coisas e dos valores segundo o sentido dos seus limites.
Escrever é quebrar o vínculo que une a palavra e o eu.
Escrever é romper esse elo. É, além disso, retirar a palavra do curso do mundo, desinvesti-la do que faz dela um poder pelo qual, se eu falo, é o mundo que se fala, é o dia que se identifica pelo trabalho, a ação e o tempo.
Escrever é o interminável, o incessante.
O escritor pertence a uma linguagem que ninguém fala, que não se dirige a ninguém, que não tem centro, que nada revela. Ele pode acreditar que se afirma nessa linguagem, mas o que afirma está inteiramente privado de si.


Maurice Blanchot

16/02/2011

a realidade é uma ficção

... e a ficção, decerto, real.


O que é humano só o é por que ficção. Fictio, fictum, fingire, fingir, fazer-de-conta, fabular: eis a habilidade, o dom, ou o fardo, que distingue o anthropos – o ser sem-lugar – no mundo. Ficcionar, palavra ligada etimologicamente à figura do figulus, o oleiro, é o ato e movimento de criar a partir de algo; a ficção: criação a partir do real – mas também com e do real. Pois, se por um lado a res fictae só faz sentido para o humano, por outro, é ela que dá Sentido à sua existência, já que a realidade, per se, ding an sich, em si mesma, é vazia, e, disse Nietzsche, digna de uma homérica gargalhada. O real tem sentido e Sentido na medida em que envolve valores, emoções, ambições, expectativas e frustrações, ou seja, na medida em que humano: e mais, na medida em que discurso; pois é pelo discurso (e pelos discursos) que o homem, animal do logos, cria e organiza o mundo, tal qual o oleiro, dando forma ao que é percebido, mas bruto. O que é humano, pois, o é por que faz e tem Sentido. A ficção, dimensão do que é do homem (e) para o homem, nunca abandona a realidade, e, longe de ser sua antagonista, é companheira inseparável: sua mãe e sua filha, já que dela parte e a ela retorna, produzindo e reproduzindo, construindo e desconstruindo Sentidos, colorindo e dando ânimo ao mundo e à existência.

27/07/2010

angustus

O homem caminhava pela estrada.
Pela estrada com pés descalços.
Com pés descalços e a roupa rasgada.
O chapéu do homem fazia sombra.
A sombra a cobrir seu rosto.
Seu rosto ninguém enxergava.


A passagem do homem é um labirinto sem muros.
Dentre unhas e dedos, o vermelho em pó.
Descalças, a n d a r i l h a v a m  
a s  d a t i l o g r a f i a s


Dedo ante dedo; ser anti-ser; pé ante pé.





04/07/2010

cotidianidade #2

Ela saiu à rua a procura de um café. Forte. Com pouco doce. Imaginar o perfume dos grãos torrados açoda o cérebro de tal modo que as mãos logo se percebem inquietas. O jornal dobrado não tem o menor sentido se devorado a seco. As notícias têm sabor amargo que logo lembram estar sentada confortavelmente à parte delas. Distanciar-se um pouco para, então, entrar em sutil comunhão, sentindo o quente tocar os lábios e o inigualável gosto do acerbo descer a garganta.

24/06/2010

de passagem #4


O que é a verdade, afinal? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões das quais se esqueceu que o são. (Nietzsche)

13/06/2010

de passagem #1

Vagueando por aqueles ermos gelados, desconfiava que era o cansaço de ver o mundo que o envelhecia, com as pálpebras sempre querendo se fechar para apagar a solidão, tornando-se cada dia mais temedroso de dormir, com receio de que os sonhos o acordassem sem qualquer notícia do amanhã, pois já sentia cega até a memória dos seus ontens. (Berredo de Menezes).


[o desenho é meu. se for copiar, avise]