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20/12/2014

artimanhas da ideologia

[...]  a maneira mais fácil de automaticamente marcar pontos em um debate é alegar que a posição do oponente não está propriamente "situada" em um contexto histórico: "Você fala sobre as mulheres - quais mulheres? Não existe a mulher enquanto tal, sua fala generalizada sobre as mulheres, em sua aparente neutralidade oniabrangente, não privilegia, então, certas figuras específicas da feminilidade e exclui outras?". Por que tal historicização radical é falsa, a despeito do óbvio momento de verdade que contém? Porque a própria realidade social contemporânea (o mercado global do capitalismo tardio) é dominada por aquilo que Marx se referiu como o poder de "abstração real": a circulação do Capital é a força de "desterritorialização" (para usar o termo de Deleuze) radical, que, em seu próprio funcionamento efetivo, ignora ativamente condições específicas, e não pode ser "enraizada" nelas. Não é mais, como na ideologia-padrão, a universalidade que encobre a torção de sua particularidade, de privilegiar um conteúdo particular; é, antes, a própria tentativa de localizar raízes particulares que encobrem ideologicamente a realidade social do reino da "abstração real".
Zizek. O amor impiedoso, p.10.

02/04/2014

revolução, despossessão, diferença

Se não há revolução sem transformação de valores sobre os quais o Ocidente se construiu, é contra a lógica que é preciso se opor, é sobre as palavras que é preciso agir. A ação social não basta. Liberar-se da lógica imposta pelo uso cotidiano da linguagem é radicalizar a revolução até a despossessão de si (despossessão dos costumes e das práticas próprias ao Ocidente) que desfaz o núcleo de todas as identidades.

Shoji Ueda

A revolução exige este trabalho de si sobre si que insere a diferença na identidade.


M. Crépon, Les Promesses du Langage.

26/12/2013

de passagem #16

Exatamente por não ser livre e ter a consciência de que esse fato o torna incompleto é que o homem arquiteta, nos atos de pensar o futuro, um ser social e individual ainda não realizado, mas que serve de orientação às lutas que ele empreende contra o sistema que existe agora e o domina exatamente para não deixá-lo ser livre, ou seja, para que, numa série de ações radicalmente transformadoras, conquiste um dia sua humanidade e assim se sinta completado.
Moacyr Felix. Algo a Dizer, 1992.

22/11/2013

sujeito espectral

O que define os dispositivos com os quais temos que lidar na atual fase do capitalismo é que estes não agem mais tanto pela produção de um sujeito quanto por meio de processos que podemos chamar de dessubjetivação. Um momento dessubjetivante estava certamente implícito em todo processo de subjetivação, e o Eu penitencial se constituía somente por meio da própria negação; mas o que acontece agora é que processos de subjetivação e processos de dessubjetivação parecem tornar-se reciprocamente indiferentes e não dão lugar à recomposição de um novo sujeito, a não ser de forma larvar e, por assim dizer, espectral. Na não-verdade do sujeito não há mais de modo algum a sua verdade.

03/10/2013

a miséria do mundo

O mundo político fechou-se pouco a pouco sobre si, sobre suas rivalidades internas, seus problemas e seus riscos próprios. Como os grandes tribunos, os políticos capazes de compreender e de exprimir as expectativas e as reivindicações de seus eleitores tornam-se cada vez mais raros e estão longe de estar no primeiro plano em suas formações. Os futuros dirigentes são designados nos debates de televisão ou nos conclaves. Os governantes são prisioneiros de um ambiente tranquilizante de jovens tecnocratas que frequentemente ignoram quase toda a vida cotidiana de seus concidadãos e a quem ninguém recorda sua ignorância. Os jornalistas, submetidos Às exigências que as pressões ou as censuras de poderes internos e externos fazem pesar sobre eles, e sobretudo a concorrência, portanto a urgência, que jamais favoreceu a reflexão, propõem muitas vezes, sobre os problemas mais candentes, descrições e análises apressadas, e amiúde imprudentes; e o efeito que produzem, tanto no universo intelectual como no universo político, é ainda mais pernicioso, às vezes, porque estão em condição de se fazer valer mutuamente e de controlar a circulação dos discursos concorrentes, como os da ciência social. Restam os intelectuais, cujo silêncio se deplora.
P. Bourdieu. A Miséria do Mundo, 1997, p. 733.

05/09/2013

de passagem #15

É verdade, todavia, que uma coisa é ainda mais instrutiva: a espantosa inexatidão provável da observação imediata, a falsificação que é obra de nossos olhos. Observar é, em grande parte, imaginar o que esperamos ver.
Valéry. Degas Dança Desenho, 2012, p. 23.

01/09/2013

as cidades também morrem

O autor, no limiar da velhice, vivenciou um daqueles momentos em que o homem, refletindo sobre a vida passada, vê refletida em tudo a própria melancolia. A pequena redução de sua acuidade visual, de que o convencera a consulta ao oculista, trouxe-lhe à memória... a lei da inevitável caducidade de todas as coisas humanas. A ele, que viajara pelos confins do Oriente, que era versado em desertos, cuja areia era a poeira dos mortos, subitamente veio a ideia de que também a cidade rugindo à sua volta deveria morrer um dia como tantas capitais... morreram. Ocorreu-lhe quão extraordinário seria o nosso interesse hoje por uma descrição exata de Atenas no tempo dos Ptolomeus, de Roma no tempo dos Césares... Graças a uma inspiração fulminante, que às vezes nos fornece um tema fora do comum, concebeu o plano de escrever sobre Paris o livro que os historiadores da antiguidade não haviam escrito sobre as próprias cidades... A obra de sua idade madura apareceu diante de sua visão anterior.
Maxime du Camp, 1862.

29/07/2013

mudar o tempo

Toda concepção de história é sempre acompanhada de uma certa experiência do tempo que lhe é implícita, que a condiciona e que é preciso, portanto, trazer à luz. Da mesma forma, toda cultura é, primeiramente, uma certa experiência do tempo, e uma nova cultura não é possível sem uma transformação desta experiência. Por conseguinte, a tarefa original de uma autêntica revolução não é jamais simplesmente "mudar o mundo", mas também e antes de mais nada "mudar o tempo".
Giorgio Agamben.

11/06/2013

ficção e realidade #3

[...] a própria ideia de que sob a aparência enganadora oculta-se uma Coisa Real definitiva, horrível demais para que a possamos encarar diretamente, é a aparência definitiva - a Coisa Real é um espectro cuja presença garante a consistência de nosso edifício simbólico, permitindo-nos evitar sua inconsistência constitutiva.
Slavoj Zizek.

19/03/2013

pessimismo revolucionário

Este pessimismo não quer dizer aceitação resignada do pior; significa que não confiamos no "curso natural da história", que nos preparamos para nadar na contracorrente, sem certeza de vitória. Não é a crença teleológica em um triunfo rápido e certo que motiva o revolucionário, mas a convicção profundamente enraizada de que não se pode viver como um ser humano digno desse nome sem combater com pertinácia e vontade inabalável a ordem estabelecida.

Michael Löwy, A Estrela da Manhã, p. 16.

12/11/2012

Utopia e Poesia

Vim para quebrar os relógios deste tempo que dá voltas sempre
sobre ele mesmo, sempre com a mesma areia a redemoinhar-se
entre portas giratórias que se abrem e que se fecham para o oco da existência.
Vim para inventar trajetórias que nunca existiram a não ser na medida em que me despedaçam.
Vim sob o escuro cadáver de Deus a transformar-se em montanhas de som dentro do que parece ser o meu silêncio.

Esta literatura aos pés dos poderosos nem como adubo serve!

O que devemos é ferver o corpo enorme de todas as mortes no caldeirão maior ainda de todas as auroras. Sim, diariamente as horas deveriam soprar no olho de todas as fogueiras os vendavais contidos nas grandes invenções do homem.
Precisamos colher além da sombra o que não somos. Ou o que não nos deixaram ser. Mesmo que tenhamos que dar nossa velhice em ossos para os cães da imprevidência. Porque a nossa morte, a que tudo isso resultará, já é um contrato assinado com a desesperança em nosso bolso.

Moacyr Félix, Sim.

15/10/2012

Contingências

A vida na hora
cena sem ensaio
corpo sem medida
cabeça sem reflexão.

Não sei o papel que desempenho
só sei que é meu, impermutável.

De que trata a peça
devo adivinhar já em cena.

[Wilsawa Szymborska, A Vida na Hora]

   *   *   *

Vê, eu vivo. De quê? Nem a infância nem o futuro minguam...

Inúmera, a existência
transborda-me do coração.

[R. M. Rilke, Nova Elegia a Duíno]

03/08/2012

sob o signo de uma calamidade triunfante

O "progresso", que já foi a manifestação mais extrema do otimismo radical e uma promessa de felicidade universalmente compartilhada e permanente, se afastou totalmente em direção ao pólo oposto, distópico e fatalista da antecipação: ele agora representa a ameaça de uma mudança inexorável e inescapável que, em vez de augurar a paz e o sossego, pressagia somente a crise e a tensão e impede um momento de descanso. O progresso se transformou numa espécie de dança das cadeiras interminável e ininterrupta, na qual um momento de desatenção resulta na derrota irreversível e na exclusão irrevogável. Em vez de grandes expectativas e sonhos agradáveis, o "progresso" evoca uma insônia cheia de pesadelos de "ser deixado para trás" - de perder o trem ou cair da janela de um veículo em rápida aceleração.
Z. Bauman. Tempos Líquidos, p. 16-17.

21/07/2012

o passado, esquecimento

O passado não foi nem tão bom nem tão ruim quanto supomos: foi apenas diferente. 
Se voltarmos para a nostalgia, jamais enfrentaremos os problemas que surgem no presente - e o mesmo vale se supomos que o mundo atual é melhor em todos os aspectos. 
O passado é realmente outra praia: não podemos voltar a ele.


Contudo, existe algo pior do que idealizar o passado ou apresentá-lo a nós e nossos filhos como um trem-fantasma: esquecê-lo.

Tony Judty. O Mal Ronda a Terra, p. 49.

20/06/2012

paisagens urbanas

O mundo não se descortina mais, como nas perspectivas tradicionais, num horizonte sem fim. Não se pode mais pretender olhá-lo como fazia o pintor, com seu cavalete armado no alto de uma colina: como de uma janela.
No horizonte, um mundo cada vez mais opaco. Quanto mais se retrata, mais as coisas nos escapam. Uma obsessão que, ao invés de criar transparência, só redobra essa saturação.
O olhar hoje é um embate com uma superfície que não se deixa perpassar. Cidades sem janelas, um horizonte cada vez mais espesso e concreto. Superfície que enruga, fende, descasca. Sobreposição de inúmeras camadas de material, acúmulo de coisas que se recusam a partir.
Cidades feitas de fluxos, em trânsito permanente, sistema de interfaces. Fraturas que esgarçam o tecido urbano, desprovido de rosto e história. Mas esses fragmentos criam analogias, produzem inusitados entrelaçamentos. Um campo vazado e permeável através do qual transitam as coisas. Tudo se passa nessas franjas, nesses espaços intersticiais, nessas pregas.

Nelson Brissac Peixoto. Paisagens Urbanas. São Paulo: Senac, 2003.

07/05/2012

porta entre-aberta



Todo sonho permanece sendo sonho pelo fato de ter tido muito pouco êxito, de ter conseguido levar pouca coisa a termo. Por isso, ele não pode esquecer o que falta, e mantém a porta aberta em relação a todas as coisas. A porta no mínimo entreaberta, quando se dirige para objetos agradáveis, chama-se esperança. Sendo que não há esperança sem angústia nem angústia sem esperança; ambas se mantêm mutuamente em suspenso, por mais que a esperança prepondere para o valente, por meio do valente. No entanto, também ela, sendo possivelmente ilusória, por qual fogo-fátuo, deve ser uma esperança sabedora, uma em si mesma previamente refletida.

Ernst Bloch. O Princípio Esperança I, p. 326.

25/03/2012

ficção e realidade #2

Vivemos num mundo governado por ficções de toda espécie. O merchandising de massa, a publicidade, a política conduzida como um ramo da propaganda, a tradução instantânea da ciência e da tecnologia em imagens populares, a crescente mistura e interpenetração de identidades no reino dos bens de consumo, de apropriação pela televisão de qualquer resposta imaginativa livre ou original à experiência. Nossa vida é uma grande novela. Para o escritor, em particular, torna-se cada vez menos necessário inventar o conteúdo ficcional de sua obra. A ficção já está aí. A tarefa do escritor é inventar a realidade. No passado, sempre consideramos que o mundo exterior em torno de nós representava a realidade, por mais incerta ou confusa que fosse, e que o mundo interior de nossas mentes, seus sonhos, esperanças e ambições, representava o reino da fantasia e da imaginação. Esses papéis, também, me parecem, foram invertidos. O mais prudente e efetivo método de lidar com o mundo ao nosso redor é assumir que ele é uma ficção completa, e, inversamente, que o único e pequeno núcleo de realidade que nos resta está no interior das nossas próprias cabeças. A clássica distinção de Freud entre conteúdos manifesto e latente do sonho, entre o aparente e o real, precisa agora ser aplicada ao mundo externo da assim chamada realidade.


J. C. Ballard. 

16/02/2011

a realidade é uma ficção

... e a ficção, decerto, real.


O que é humano só o é por que ficção. Fictio, fictum, fingire, fingir, fazer-de-conta, fabular: eis a habilidade, o dom, ou o fardo, que distingue o anthropos – o ser sem-lugar – no mundo. Ficcionar, palavra ligada etimologicamente à figura do figulus, o oleiro, é o ato e movimento de criar a partir de algo; a ficção: criação a partir do real – mas também com e do real. Pois, se por um lado a res fictae só faz sentido para o humano, por outro, é ela que dá Sentido à sua existência, já que a realidade, per se, ding an sich, em si mesma, é vazia, e, disse Nietzsche, digna de uma homérica gargalhada. O real tem sentido e Sentido na medida em que envolve valores, emoções, ambições, expectativas e frustrações, ou seja, na medida em que humano: e mais, na medida em que discurso; pois é pelo discurso (e pelos discursos) que o homem, animal do logos, cria e organiza o mundo, tal qual o oleiro, dando forma ao que é percebido, mas bruto. O que é humano, pois, o é por que faz e tem Sentido. A ficção, dimensão do que é do homem (e) para o homem, nunca abandona a realidade, e, longe de ser sua antagonista, é companheira inseparável: sua mãe e sua filha, já que dela parte e a ela retorna, produzindo e reproduzindo, construindo e desconstruindo Sentidos, colorindo e dando ânimo ao mundo e à existência.

14/01/2011

notas sobre a Utopia

[momento Narciso]

Numa sociedade marcada pelo princípio da utilidade, pela instrumentalização do mundo dirigida a satisfações mercadológicas e a lógicas de produtividade, a palavra Utopia aparece cada vez mais associada à anti-produtividade, ao irreal, ao impossível. Àquele que se aventura em explorar possibilidades imaginárias, outros mundos melhores e mais justos, é presente a chamada de atenção à “realidade dos fatos”. Diz-se que “imagina coisas” aquele que mente; diz a professora ao aluno que “volte ao mundo real” e não se perca no “mundo das ideias”, e a rejeição ao sonho atravessa instituições e consciências desde a mais tenra idade. Não obstante, a Utopia é vista com desconfiança e desprezo pelo indivíduo reificado e funcional: ele não tem tempo a perder com o impossível.
Mas se a instrumental sociedade contemporânea pejora e marginaliza a Utopia, ela, em contrapartida, denuncia a não-liberdade dessa ordem, confrontando o instante a melhores possibilidades. [...]

28/11/2010

a guerra na tv

será que uma boa imagem é mesmo capaz de dizer mais que um punhado de palavras?



...   ...   ...

se não,


"A morte da menina mostra que a operação na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão não foi um sucesso.  Mesmo que estivéssemos em guerra verdadeira, não podemos falar em sucesso se há um inocente morto por uma bala paga com o nosso dinheiro, de contribuinte. Eu não posso querer pagar meus impostos e ver meu dinheiro servindo para tirar a vida de Rosângela! Caso concorde, estou eu mesmo puxando o gatilho contra a jovem estudante, que estava dentro de sua casa". (P. Ghiraldelli Jr.)

"O Jornal Nacional, nesta quinta, 25 de novembro, definiu o caos no Rio de Janeiro, salpicado de cenas de guerra e morte, pânico e desespero, como um dia histórico de vitória: o dia em que as polícias ocuparam a Vila Cruzeiro. Ou eu sofri um súbito apagão mental e me tornei um idiota contumaz e incorrigível ou os editores do JN sentiram-se autorizados a tratar milhões de telespectadores como contumazes e incorrigíveis idiotas". (L. E. Soares)