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08/06/2014

esculpir o tempo

O tempo e a memória incorporam-se numa só entidade; são como os dois lados de uma medalha. É por demais óbvio que, sem o Tempo, a memória também não pode existir. A memória, porém, é algo tão complexo que nenhuma relação de todos os seus atributos seria capaz de definir a totalidade das impressões através das quais ela nos afeta. A memória é um conceito espiritual! [...] Privado da memória, o homem torna-se prisioneiro de uma existência ilusória; ao ficar à margem do tempo, ele é incapaz de compreender os elos que o ligam ao mundo exterior — em outras palavras, vê-se condenado à loucura. [...] 
O tempo não pode desaparecer sem deixar vestígios, pois é uma categoria espiritual e subjetiva, e o tempo por nós vivido fixa-se em nossa alma como uma experiência situada no interior do tempo.
Andrei Tarkovski.

11/11/2013

Heráclito, o tempo, o azar

[...] o curso do tempo não é mais que o tempo em sua indeterminação, ou em sua dinâmica indefinida. Sendo o tempo, para Heráclito, uma "criança que joga", o azar não pode ser outra coisa que a proveniência da ordem do mundo. Mas sendo o mundo, por sua vez, o destino que se joga a cada momento, o tempo não é outra coisa que o reino ou o âmbito de suas aparições.

01/09/2013

as cidades também morrem

O autor, no limiar da velhice, vivenciou um daqueles momentos em que o homem, refletindo sobre a vida passada, vê refletida em tudo a própria melancolia. A pequena redução de sua acuidade visual, de que o convencera a consulta ao oculista, trouxe-lhe à memória... a lei da inevitável caducidade de todas as coisas humanas. A ele, que viajara pelos confins do Oriente, que era versado em desertos, cuja areia era a poeira dos mortos, subitamente veio a ideia de que também a cidade rugindo à sua volta deveria morrer um dia como tantas capitais... morreram. Ocorreu-lhe quão extraordinário seria o nosso interesse hoje por uma descrição exata de Atenas no tempo dos Ptolomeus, de Roma no tempo dos Césares... Graças a uma inspiração fulminante, que às vezes nos fornece um tema fora do comum, concebeu o plano de escrever sobre Paris o livro que os historiadores da antiguidade não haviam escrito sobre as próprias cidades... A obra de sua idade madura apareceu diante de sua visão anterior.
Maxime du Camp, 1862.

29/07/2013

mudar o tempo

Toda concepção de história é sempre acompanhada de uma certa experiência do tempo que lhe é implícita, que a condiciona e que é preciso, portanto, trazer à luz. Da mesma forma, toda cultura é, primeiramente, uma certa experiência do tempo, e uma nova cultura não é possível sem uma transformação desta experiência. Por conseguinte, a tarefa original de uma autêntica revolução não é jamais simplesmente "mudar o mundo", mas também e antes de mais nada "mudar o tempo".
Giorgio Agamben.

12/11/2012

Utopia e Poesia

Vim para quebrar os relógios deste tempo que dá voltas sempre
sobre ele mesmo, sempre com a mesma areia a redemoinhar-se
entre portas giratórias que se abrem e que se fecham para o oco da existência.
Vim para inventar trajetórias que nunca existiram a não ser na medida em que me despedaçam.
Vim sob o escuro cadáver de Deus a transformar-se em montanhas de som dentro do que parece ser o meu silêncio.

Esta literatura aos pés dos poderosos nem como adubo serve!

O que devemos é ferver o corpo enorme de todas as mortes no caldeirão maior ainda de todas as auroras. Sim, diariamente as horas deveriam soprar no olho de todas as fogueiras os vendavais contidos nas grandes invenções do homem.
Precisamos colher além da sombra o que não somos. Ou o que não nos deixaram ser. Mesmo que tenhamos que dar nossa velhice em ossos para os cães da imprevidência. Porque a nossa morte, a que tudo isso resultará, já é um contrato assinado com a desesperança em nosso bolso.

Moacyr Félix, Sim.

22/10/2012

de passagem #10

A superação dos conceitos de "progresso" e de "época de decadência" são apenas dois lados de uma mesma coisa.
Benjamin, Passagens, p. 503.

15/10/2012

Contingências

A vida na hora
cena sem ensaio
corpo sem medida
cabeça sem reflexão.

Não sei o papel que desempenho
só sei que é meu, impermutável.

De que trata a peça
devo adivinhar já em cena.

[Wilsawa Szymborska, A Vida na Hora]

   *   *   *

Vê, eu vivo. De quê? Nem a infância nem o futuro minguam...

Inúmera, a existência
transborda-me do coração.

[R. M. Rilke, Nova Elegia a Duíno]

03/08/2012

sob o signo de uma calamidade triunfante

O "progresso", que já foi a manifestação mais extrema do otimismo radical e uma promessa de felicidade universalmente compartilhada e permanente, se afastou totalmente em direção ao pólo oposto, distópico e fatalista da antecipação: ele agora representa a ameaça de uma mudança inexorável e inescapável que, em vez de augurar a paz e o sossego, pressagia somente a crise e a tensão e impede um momento de descanso. O progresso se transformou numa espécie de dança das cadeiras interminável e ininterrupta, na qual um momento de desatenção resulta na derrota irreversível e na exclusão irrevogável. Em vez de grandes expectativas e sonhos agradáveis, o "progresso" evoca uma insônia cheia de pesadelos de "ser deixado para trás" - de perder o trem ou cair da janela de um veículo em rápida aceleração.
Z. Bauman. Tempos Líquidos, p. 16-17.

21/07/2012

o passado, esquecimento

O passado não foi nem tão bom nem tão ruim quanto supomos: foi apenas diferente. 
Se voltarmos para a nostalgia, jamais enfrentaremos os problemas que surgem no presente - e o mesmo vale se supomos que o mundo atual é melhor em todos os aspectos. 
O passado é realmente outra praia: não podemos voltar a ele.


Contudo, existe algo pior do que idealizar o passado ou apresentá-lo a nós e nossos filhos como um trem-fantasma: esquecê-lo.

Tony Judty. O Mal Ronda a Terra, p. 49.

02/07/2012

luta pela lembrança

Meus pensamentos se foram afastando de mim, porém chegado a uma senda acolhedora rechasso os tumultuosos pesares presentes e me detenho, de olhos fechados, enervado num aroma de distância que eu mesmo fui conservando, em minha pequena luta contra a vida. Somente vivi ontem. O agora tem essa desnudez à espera do que deseja, selo provisório que vai envelhecendo sem amor.
Ontem é uma árvore de longas ramarias, e à sombra estou deitado, recordando.
Subitamente contemplo surpreso longas caravanas de caminhantes que, chegados como eu a esta senda, com os olhos adormecidos na lembrança, cantam canções para si mesmos e recordam. E algo me diz que mudaram para se deterem, que falaram para se calarem, que abriram os olhos atônitos ante a festa das estrelas para os fecharem e recordar...
Deitado neste novo caminho, com os ávidos olhos enflorados de distância, cuido em vão de deter o rio do tempo que tremula sobre minhas atitudes. Mas a água que logro conhecer fica aprisionada nos ocultos reservatórios do meu coração em que amanhã terão de submergir minhas velhas mãos solitárias...

Neruda. Para Nascer Nasci, 1981, p. 12.

01/04/2012

tempo e experiência

Somos el tiempo. Somos la famosa
parábola de Heráclito el Oscuro.
Somos el agua, no el diamante duro,
la que se pierde, no la que reposa.
Somos el río y somos aquel griego
que se mira en el río. Su reflejo
cambia en el agua dei cambiante espejo,
en el cristal que cambia como el fuego.
Somos el vano rio prefijado,
rumbo a su mar. La sombra lo ha cercado.
Todo nos dijo adiós, todo se aleja.
La memória no acuna su moneda.
Y sin embargo hay algo que se queda
y sin embargo hay algo que se queja.
J. L. Borges.

Somos tempo; nossa matéria é tempo. Mas o tempo é como um rio que flui incessante, em devenir. Sua verdadeira forma não se deixa captar; água que escorre pelos dedos que também não são os mesmos. A miúde, sua verdadeira forma é a não-forma, sua verdade universal e necessária é a ausência de qualquer determinação universal e necessária. Nós, que somos tempo, somos, em essência, a não-essência: cristal que se desforma e transforma com o fogo. "Tudo nos diz Adeus; tudo nos deixa". Cantou Rilke nas Elegias de Duíno: "Tal como o orvalho matinal sobre a erva, o que é nosso evapora-se de nós, como o calor de um prato fumegante".
"A memória não cunha sua moeda". Vivemos a grande era da "morte da experiência", como chamou Benjamin. A presentificação da vida, perda do passado e destruição do futuro, marca nossa existência moderna, incapaz de superar a si mesma, pois se realiza na aparência da não-contradição. O atualizar constante das caixas de e-mail revela o desejo pelo novo que é o mesmo. Efemeridade do tempo que se limita ao Agora. Agora que, soberano e tirano, faz de escravos seus súditos. Eis a alienação do tempo. Existência trágica, pois persegue um tempo vazio; o correr em torno de si mesmo da busca pelo tempo ausente só faz apertar o nó que nos amarra ao Agora e aliena da experiência.

20/01/2012

serei todos ou ninguém

Quando os relógios da meia-noite prodigarem
um tempo generoso,
irei mais longe que os voga-avante de Ulisses
à região do sonho, inacessível
à memória humana.
Dessa região imersa resgato restos
que não consigo compreender:
ervas de singela botânica,
animais algo diversos,
diálogos com os mortos,
rostos que realmente são máscaras,
palavras de linguagens muito antigas
E às vezes um horror incomparável
ao que nos pode dar o dia...
Serei todos ou ninguém. Serei o outro
que sem sabê-lo, sou, o que fitou
esse outro sonho, minha vigília. E a julga,
resignado e sorridente.


O Sonho. J. L. Borges

06/08/2010

o mais pesado dos pesos

Pensamentos, enfim, passageiros. Neblina distante sobre a qual tem-se alguma impressão, algum cheiro. Pensamentos, enfim, transeuntes. Escorrendo assimétricos e constantes pela inalcançável cama do tempo. Reclinando-se, sem conforto, na ingratidão transcendental. 
Nossos dedos, nossas janelas, nossos pelos. Nossas camas, mulheres e manhãs. Todas as coisas que nos faltam, em ciranda perversa. Sem mãos e de mãos dadas girando em sentido horário. Perverso relógio.
Nossos rituais, carnavais e cervejas. Nossas calças diárias, orgasmos e cigarros. Temperos e condimentos, e ingredientes sem sabor. Entrechocando-se em harmonia estranha no caldeirão da vida, do mundo, do espaço-tempo. 
A mão invisível da fortuna nos há de preparar. Mas quem há de comer? Quem há de nos saborear e saboreia neste cruel e inacabado ainda-não? 
A mão gorda da fortuna nos girando em... sentido... horário... zunindo, altiva, Ode To Joy.

26/07/2010

sobre a imaginação

A imaginação vive à margem da razão e da realidade. E estar à margem é estar dentro, mas pelas beiradas, num ritmo diferente. Na margem se segue o desaguar incessante do flúmem; suas marés, seu fluir, seu continuum. Não se passa impune às cheias e às baixas, mas se é afetado de modo diferente: embora dentro, estar à margem permite ver em perspectiva; dentre pedras, lodo e madeiras, tudo passa em outra cronometragem. Nas margens do rio calmo e limpo se achegam o pescador em busca do alimento, o animal para matar a sede, as lavadeiras, e crianças com barcos de papel. Nas do poluído, é o lixo que se acumula. De qualquer modo, são as margens que delimitam a largura do rio, no encontro da água com a terra. A imaginação dá a dimensão, a profundidade, o volume do real.

24/06/2010

cotidianidade



Passos molhados se desviam sob sombras projetadas por guarda-chuvas. Poças, sapatos e asfalto. Pernas, relógios, pressas e grilhões. A infinidade de sons adormece os ouvidos e a aflição de destinos entrecruzados é nada além de estática, inércia, calmaria e o cumprimento de um dever religioso e inquestionado.


leia todo o texto aqui: sombras e perspectivas
desenho: http://annacorina.wordpress.com/2009-2/

18/06/2010

de passagem #3

Acho que todos nós devemos repensar o que andamos aqui a fazer. Bom é que nos divirtamos, que vamos à praia, à festa, ao futebol, esta vida são dois dias, quem vier atrás que feche a porta – mas se não nos decidirmos a olhar o mundo gravemente, com olhos severos e avaliadores, o mais certo é termos apenas um dia para viver, o mais certo é deixarmos a porta aberta para um vazio infinito de morte, escuridão e malogro.
(J. Saramago)

17/06/2010

sobre o tempo

O relógio marcava a hora mas não dizia o dia. O Tempo, desconcertado, estava parado. Sim, estava parado em cima do telhado... como um catavento que perdeu as asas.
(Quintana)