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30/03/2014

imagens dialéticas

Regina Silveira
#1 A imagem dialética é uma imagem que lampeja. É assim, como uma imagem que lampeja no agora da cognoscibilidade, que deve ser captado o ocorrido. A salvação que se realiza deste modo - e somente deste modo - não pode se realizar senão naquilo que estará irremediavelmente perdido no instante seguinte. 

#2 A especificidade da experiência dialética consiste em dissipar a aparência do sempre-igual - e mesmo da repetição - na história. A experiência política autêntica está absolutamente livre dessa aparência.

#3 Os fenômenos são salvos de quê? Não apenas - nem principalmente - do descrédito e do desprezo em que caíram, mas da catástrofe, que é representada muitas vezes por um certo tipo de tradição, sua "celebração como patrimônio". - São salvos pela demonstração de que existe neles uma ruptura ou descontinuidade [Sprung], - Existe uma tradição que é catástrofe.

W. Benjamin. Passagens, N 9.

29/03/2014

crítica

A verdadeira operação crítica surge [da] união radical entre destruição e salvação: ao arrancar as palavras e as obras do contexto lenitivo que, às vezes o próprio autor, e, quase sempre, a história [...] tradicional se apressam em lhes emprestar, a crítica quebra sua unidade factícia e, simultaneamente, expõe sua força de estranheza e subversão.
J. M. Gagnebin.

01/09/2013

as cidades também morrem

O autor, no limiar da velhice, vivenciou um daqueles momentos em que o homem, refletindo sobre a vida passada, vê refletida em tudo a própria melancolia. A pequena redução de sua acuidade visual, de que o convencera a consulta ao oculista, trouxe-lhe à memória... a lei da inevitável caducidade de todas as coisas humanas. A ele, que viajara pelos confins do Oriente, que era versado em desertos, cuja areia era a poeira dos mortos, subitamente veio a ideia de que também a cidade rugindo à sua volta deveria morrer um dia como tantas capitais... morreram. Ocorreu-lhe quão extraordinário seria o nosso interesse hoje por uma descrição exata de Atenas no tempo dos Ptolomeus, de Roma no tempo dos Césares... Graças a uma inspiração fulminante, que às vezes nos fornece um tema fora do comum, concebeu o plano de escrever sobre Paris o livro que os historiadores da antiguidade não haviam escrito sobre as próprias cidades... A obra de sua idade madura apareceu diante de sua visão anterior.
Maxime du Camp, 1862.

26/06/2013

fragmentos de benjamin

Se a filosofia quiser conservar a lei da sua forma, não como propedêutica mediadora do conhecimento, mas como representação da verdade, então aquilo que mais importa deve ser a prática dessa sua forma, e não sua antecipação num sistema. 
[...] Método é caminho não direto. [...] A sua primeira característica é a renúncia o percurso ininterrupto da intenção. O pensamento volta continuamente ao princípio, regressa com minúcia à própria coisa. Este infatigável movimento de respiração é o modo de ser específico da contemplação. [...] E não receia perder o ímpeto, tal como um mosaico não perde a sua majestade pelo fato de ser caprichosamente fragmentado. [...] O valor dos fragmentos de pensamento é tanto mais decisivo quanto menos imediata é a sua relação com a concepção de fundo [...].

10/11/2012

de passagem #11

A indústria do entretenimento facilita-o, ao elevá-lo ao nível da mercadoria. Ele [o homem] se abandona a suas manipulações ao desfrutar sua própria alienação.
Benjamin.

22/10/2012

de passagem #10

A superação dos conceitos de "progresso" e de "época de decadência" são apenas dois lados de uma mesma coisa.
Benjamin, Passagens, p. 503.

01/04/2012

tempo e experiência

Somos el tiempo. Somos la famosa
parábola de Heráclito el Oscuro.
Somos el agua, no el diamante duro,
la que se pierde, no la que reposa.
Somos el río y somos aquel griego
que se mira en el río. Su reflejo
cambia en el agua dei cambiante espejo,
en el cristal que cambia como el fuego.
Somos el vano rio prefijado,
rumbo a su mar. La sombra lo ha cercado.
Todo nos dijo adiós, todo se aleja.
La memória no acuna su moneda.
Y sin embargo hay algo que se queda
y sin embargo hay algo que se queja.
J. L. Borges.

Somos tempo; nossa matéria é tempo. Mas o tempo é como um rio que flui incessante, em devenir. Sua verdadeira forma não se deixa captar; água que escorre pelos dedos que também não são os mesmos. A miúde, sua verdadeira forma é a não-forma, sua verdade universal e necessária é a ausência de qualquer determinação universal e necessária. Nós, que somos tempo, somos, em essência, a não-essência: cristal que se desforma e transforma com o fogo. "Tudo nos diz Adeus; tudo nos deixa". Cantou Rilke nas Elegias de Duíno: "Tal como o orvalho matinal sobre a erva, o que é nosso evapora-se de nós, como o calor de um prato fumegante".
"A memória não cunha sua moeda". Vivemos a grande era da "morte da experiência", como chamou Benjamin. A presentificação da vida, perda do passado e destruição do futuro, marca nossa existência moderna, incapaz de superar a si mesma, pois se realiza na aparência da não-contradição. O atualizar constante das caixas de e-mail revela o desejo pelo novo que é o mesmo. Efemeridade do tempo que se limita ao Agora. Agora que, soberano e tirano, faz de escravos seus súditos. Eis a alienação do tempo. Existência trágica, pois persegue um tempo vazio; o correr em torno de si mesmo da busca pelo tempo ausente só faz apertar o nó que nos amarra ao Agora e aliena da experiência.

23/03/2012

notas sobre Benjamin #1

Ó anjo da alegria, já viste a desgraça,
os soluços, o tédio, o remorso, as vergonhas,
e o difuso terror dessas noites medonhas
que o peito oprimem como um papel que se amassa?
Baudelaire. As Flores do Mal.


Benjamin e os frankfurtianos sempre estiveram atentos ao fragmento. Contar, refletir, interpretar por e através de fragmentos. O fragmento se inscreve no todo, não por dedução, nem por indução; ou seja, não para confirmar o mundo, tampouco para dar conta da sua totalidade, mas para "escovar a história a contrapelo". Adorno, influenciado por Benjamin, pensou nas "constelações": peças e elementos isolados, "figuras históricas", vestígios, sinais - não-intencionais - com os quais o filósofo/historiador "compõe", como o músico, o quadro textual - cujo significado não é nem será, em nenhuma hipótese, em-si. Interpretar e criar se fundem enquanto prática (teórica) crítica. 

30/06/2011

de passagem #6

O homem que lê, que pensa, que espera, que se dedica à flânerie, pertence, do mesmo modo que o fumador de ópio, o sonhador e o ébrio, à galeria dos iluminados. E são iluminados mais profanos. Para não falar da mais terrível de todas as drogas - nós mesmos - que tomamos quando estamos sós.

Walter Benjamin

15/01/2011

café com Benjamin

Em nenhuma refeição as cadências são mais distintas, desde o manejar mecânico do empregado, que apóia no zinco seu copo de café-com-leite, até o prazer contemplativo, com que, na pausa entre dois goles, o viajante vagarosamente esvazia a xícara. E tu mesmo estás sentado, talvez ao lado dele, à mesma mesa, no mesmo banco, e, contudo, te sentes distante e sozinho. Sacrificas tua sobriedade matinal para tomar alguma coisa. E o que não tomas com este café: toda a manhã deste dia e, às vezes também, a manhã perdida da vida! 


Se, quando criança, tivesses sentado a esta mesa, quantos navios não teriam deslizado sobre o mar de gelo do tampo de mármore? Terias sabido como é o Mar de Mármara. Ao avistar um iceberg ou um veleiro, terias tomado um gole para o pai e um para o tio e um para o irmão, até que o creme boiando vagarosamente tivesse chegado à borda espessa da tua xícara, amplo promontio! Como tudo se passa rápida e higienicamente: bebes, não embebes, não ensopas. Sonolento, estendes a mão para apanhar a madeleine na cesta de pão e, partindo-a, nem sequer notas como te entristece não poder reparti-la.


BENJAMIN, Walter. Rua de Mão Única. p. 214

22/06/2010

o mundo é um arsenal de máscaras

A assim chamada imagem interior do próprio ser que trazemos em nós é, de minuto a minuto, pura improvisação. Ela se orienta, se assim podemos dizer, inteiramente de acordo com as máscaras que lhe são exibidas. O mundo é um arsenal de máscaras. Só o homem atrofiado e desolado o busca como simulação em seu próprio interior. Pois nós mesmos somos em geral pobres em imagens. 


16/06/2010

de passagem #2

O que torna tão incomparável e tão irrecuperável a primeiríssima visão de uma aldeia, de uma cidade na paisagem, é que nela a distância vibra na mais rigorosa ligação com a proximidade. O hábito ainda não fez sua obra. Uma vez que começamos a nos orientar, a paisagem de um só golpe desapareceu, como a fachada de uma casa quando entramos. Ainda não adquiriru uma preponderância através da investigação constante, transformada em hábito. Uma vez que começamos a nos orientar no local, aquela imagem primeira não pode nunca reestabelecer-se. (Walter Benjamin).