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27/08/2014

sofrimento, poesia, alegria

Moacyr Félix
[...] para mim, o sofrimento é muito importante, o sofrimento existe como motivação na medida em que leva o homem a lutar consigo mesmo, ou seja, o homem é um ser que resulta da negação do não-ser na medida em que tem consciência daquilo que ele não é, ou não pode ser, ou do que pulsa dentro dele: a morte, o mistério, o acaso. Eu luto contra a dor para conquistar esse não-ser de que tenho consciência, ou seja, como diz Marx no quarto capítulo de O capital, somente o homem tem a consciência de que é necessário resgatar a humanidade de que o privaram. De repente ele se vê amputado do ser que ele devia ser e toma a consciência desse ser do qual foi exilado. Então ele passa a ser movido pela melancolia, a solidão, o desespero, o sofrimento. Toda a minha poesia é impulsionada por isso e, na medida em que sou impelido por isso, sonho com a utopia que o nosso Gullar chama de alegria, isto é, um sentimento de que seremos irmãos de nossos semelhantes e passaremos a viver em comunhão. Sendo assim, tomo-me cúmplice desse movimento que nos leva a fazer com que a alegria apareça dessa forma. 
Moacyr Félix, Poesia Sempre, ano 6, n. 9, 1998.

08/05/2014

a noite

O que se passa na noite? De um modo geral, dormimos. Pelo sono, o dia serve-se da noite para apagar a noite. Dormir pertence ao mundo, é uma tarefa, dormimos de acordo com a lei geral que faz depender a nossa atividade diurna do repouso de nossas noites. Chamamos o sono e ele vem; existe, entre ele e nós, como que um pacto, um tratado sem cláusulas secretas e, por essa convenção, é entendido que, longe de ser uma perigosa força enfeitiçadora, domesticada, o sono se fará o instrumento de nossa potência de agir. Damo-nos a ele, mas como o senhor se confia ao escravo que o serve. Dormir é a ação clara que nos promete o dia. Dormir, eis o ato extraordinário de nossa vigilância. Dormir profundamente só nos faz escapar ao que existe no fundo do sonho. Onde está a noite? Não há mais noite.
M. Blanchot. O Sono, A Noite.

26/12/2013

de passagem #16

Exatamente por não ser livre e ter a consciência de que esse fato o torna incompleto é que o homem arquiteta, nos atos de pensar o futuro, um ser social e individual ainda não realizado, mas que serve de orientação às lutas que ele empreende contra o sistema que existe agora e o domina exatamente para não deixá-lo ser livre, ou seja, para que, numa série de ações radicalmente transformadoras, conquiste um dia sua humanidade e assim se sinta completado.
Moacyr Felix. Algo a Dizer, 1992.

19/03/2013

pessimismo revolucionário

Este pessimismo não quer dizer aceitação resignada do pior; significa que não confiamos no "curso natural da história", que nos preparamos para nadar na contracorrente, sem certeza de vitória. Não é a crença teleológica em um triunfo rápido e certo que motiva o revolucionário, mas a convicção profundamente enraizada de que não se pode viver como um ser humano digno desse nome sem combater com pertinácia e vontade inabalável a ordem estabelecida.

Michael Löwy, A Estrela da Manhã, p. 16.

12/11/2012

Utopia e Poesia

Vim para quebrar os relógios deste tempo que dá voltas sempre
sobre ele mesmo, sempre com a mesma areia a redemoinhar-se
entre portas giratórias que se abrem e que se fecham para o oco da existência.
Vim para inventar trajetórias que nunca existiram a não ser na medida em que me despedaçam.
Vim sob o escuro cadáver de Deus a transformar-se em montanhas de som dentro do que parece ser o meu silêncio.

Esta literatura aos pés dos poderosos nem como adubo serve!

O que devemos é ferver o corpo enorme de todas as mortes no caldeirão maior ainda de todas as auroras. Sim, diariamente as horas deveriam soprar no olho de todas as fogueiras os vendavais contidos nas grandes invenções do homem.
Precisamos colher além da sombra o que não somos. Ou o que não nos deixaram ser. Mesmo que tenhamos que dar nossa velhice em ossos para os cães da imprevidência. Porque a nossa morte, a que tudo isso resultará, já é um contrato assinado com a desesperança em nosso bolso.

Moacyr Félix, Sim.

03/08/2012

sob o signo de uma calamidade triunfante

O "progresso", que já foi a manifestação mais extrema do otimismo radical e uma promessa de felicidade universalmente compartilhada e permanente, se afastou totalmente em direção ao pólo oposto, distópico e fatalista da antecipação: ele agora representa a ameaça de uma mudança inexorável e inescapável que, em vez de augurar a paz e o sossego, pressagia somente a crise e a tensão e impede um momento de descanso. O progresso se transformou numa espécie de dança das cadeiras interminável e ininterrupta, na qual um momento de desatenção resulta na derrota irreversível e na exclusão irrevogável. Em vez de grandes expectativas e sonhos agradáveis, o "progresso" evoca uma insônia cheia de pesadelos de "ser deixado para trás" - de perder o trem ou cair da janela de um veículo em rápida aceleração.
Z. Bauman. Tempos Líquidos, p. 16-17.

07/05/2012

porta entre-aberta



Todo sonho permanece sendo sonho pelo fato de ter tido muito pouco êxito, de ter conseguido levar pouca coisa a termo. Por isso, ele não pode esquecer o que falta, e mantém a porta aberta em relação a todas as coisas. A porta no mínimo entreaberta, quando se dirige para objetos agradáveis, chama-se esperança. Sendo que não há esperança sem angústia nem angústia sem esperança; ambas se mantêm mutuamente em suspenso, por mais que a esperança prepondere para o valente, por meio do valente. No entanto, também ela, sendo possivelmente ilusória, por qual fogo-fátuo, deve ser uma esperança sabedora, uma em si mesma previamente refletida.

Ernst Bloch. O Princípio Esperança I, p. 326.

20/01/2012

serei todos ou ninguém

Quando os relógios da meia-noite prodigarem
um tempo generoso,
irei mais longe que os voga-avante de Ulisses
à região do sonho, inacessível
à memória humana.
Dessa região imersa resgato restos
que não consigo compreender:
ervas de singela botânica,
animais algo diversos,
diálogos com os mortos,
rostos que realmente são máscaras,
palavras de linguagens muito antigas
E às vezes um horror incomparável
ao que nos pode dar o dia...
Serei todos ou ninguém. Serei o outro
que sem sabê-lo, sou, o que fitou
esse outro sonho, minha vigília. E a julga,
resignado e sorridente.


O Sonho. J. L. Borges

30/06/2011

de passagem #6

O homem que lê, que pensa, que espera, que se dedica à flânerie, pertence, do mesmo modo que o fumador de ópio, o sonhador e o ébrio, à galeria dos iluminados. E são iluminados mais profanos. Para não falar da mais terrível de todas as drogas - nós mesmos - que tomamos quando estamos sós.

Walter Benjamin

24/03/2011

quintana, u-topia, desejo de exílio

Há coisas que a minha alma, já tão mortificada, não admite:
assistir novelas de TV
ouvir música Pop
um filme apenas de corridas de automóvel
uma corrida de automóvel num filme
um livro de paginas ligadas
porque, sendo bom, a gente abre sofregamente a dedo:
espátulas não há... e quem é que hoje faz questão de 
[virgindades
E quando minha alma,
estraçalhada a todo instante pelos telefones, fugir desesperada,
me deixará aqui,
ouvindo o que todos ouvem, bebendo o que todos bebem, comendo o que todos comem. 
A estes, a falta de alma não incomoda. (Desconfio até que minha pobre alma fora destinada ao habitante de outro mundo).
[…] 
E apenas sentirei, uma vez que outra,
a vaga nostalgia de não sei que mundo perdido...
Mario Quintana



A alma incomoda; talvez não lhe pertença. O estrangeiro de si mesmo, forasteiro do tempo, acena para um mundo-outro, topos desconhecido, mas quiçá possível – precisa o ser, sob risco do abandono derradeiro: o desespero, a des-esperança. Tocam os telefones, toca o rádio, sons repetitivos. A rotina desenha um futuro de burocratização e mesmice catastróficas à consciência inquieta que, mesmo sem saber ao certo o que quer, bem sabe o que não quer. A alma que incomoda perturba não somente a consciência, mas a ordem. O não-contentar-se do espírito utópico deseja o não existente. Contudo, no desejo de exílio, por causa dele e com ele, o topos-outro existe! Não somente como possibilidade, mas realidade: não fato, mas imaginação; não dado, mas vir-a-ser. É esta a diferença entre a-topia, lugar-nenhum, e u-topia, não-lugar. Diferença que é mais grave e profunda que o jogo etimológico dos radicais, pois envolve, fundamentalmente, maneiras de sentir, pensar e, claro, estar-no-mundo. O poeta em dias ímpios, diz Victor Hugo, vem preparar dias melhores. É ele o homem das utopias; os pés aqui, os olhos em outro lugar.


14/01/2011

notas sobre a Utopia

[momento Narciso]

Numa sociedade marcada pelo princípio da utilidade, pela instrumentalização do mundo dirigida a satisfações mercadológicas e a lógicas de produtividade, a palavra Utopia aparece cada vez mais associada à anti-produtividade, ao irreal, ao impossível. Àquele que se aventura em explorar possibilidades imaginárias, outros mundos melhores e mais justos, é presente a chamada de atenção à “realidade dos fatos”. Diz-se que “imagina coisas” aquele que mente; diz a professora ao aluno que “volte ao mundo real” e não se perca no “mundo das ideias”, e a rejeição ao sonho atravessa instituições e consciências desde a mais tenra idade. Não obstante, a Utopia é vista com desconfiança e desprezo pelo indivíduo reificado e funcional: ele não tem tempo a perder com o impossível.
Mas se a instrumental sociedade contemporânea pejora e marginaliza a Utopia, ela, em contrapartida, denuncia a não-liberdade dessa ordem, confrontando o instante a melhores possibilidades. [...]