Mostrando postagens com marcador subjetividade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador subjetividade. Mostrar todas as postagens

08/06/2014

esculpir o tempo

O tempo e a memória incorporam-se numa só entidade; são como os dois lados de uma medalha. É por demais óbvio que, sem o Tempo, a memória também não pode existir. A memória, porém, é algo tão complexo que nenhuma relação de todos os seus atributos seria capaz de definir a totalidade das impressões através das quais ela nos afeta. A memória é um conceito espiritual! [...] Privado da memória, o homem torna-se prisioneiro de uma existência ilusória; ao ficar à margem do tempo, ele é incapaz de compreender os elos que o ligam ao mundo exterior — em outras palavras, vê-se condenado à loucura. [...] 
O tempo não pode desaparecer sem deixar vestígios, pois é uma categoria espiritual e subjetiva, e o tempo por nós vivido fixa-se em nossa alma como uma experiência situada no interior do tempo.
Andrei Tarkovski.

06/06/2014

efeito de sujeito

O sujeito não é mais do que um rápido efeito que se perde em seguida, ele não goza de nenhuma constância, ao contrário do eu que é imagem enganosa surgida no espelho como a promessa, nunca inteiramente cumprida, de permanecer sempre a mesma. O sujeito é efeito de um ato que se dá numa trajetória, num circuito que necessita do outro, o convoca e só com ele se completa.
Tania Rivera.

19/02/2014

de passagem #17

A consciência-de-si é a reflexão, a partir do ser do mundo sensível e percebido; é essencialmente o retorno a partir do ser-Outro.
Hegel, Fenomenologia do Espírito I, p. 120.

22/11/2013

sujeito espectral

O que define os dispositivos com os quais temos que lidar na atual fase do capitalismo é que estes não agem mais tanto pela produção de um sujeito quanto por meio de processos que podemos chamar de dessubjetivação. Um momento dessubjetivante estava certamente implícito em todo processo de subjetivação, e o Eu penitencial se constituía somente por meio da própria negação; mas o que acontece agora é que processos de subjetivação e processos de dessubjetivação parecem tornar-se reciprocamente indiferentes e não dão lugar à recomposição de um novo sujeito, a não ser de forma larvar e, por assim dizer, espectral. Na não-verdade do sujeito não há mais de modo algum a sua verdade.

01/09/2013

as cidades também morrem

O autor, no limiar da velhice, vivenciou um daqueles momentos em que o homem, refletindo sobre a vida passada, vê refletida em tudo a própria melancolia. A pequena redução de sua acuidade visual, de que o convencera a consulta ao oculista, trouxe-lhe à memória... a lei da inevitável caducidade de todas as coisas humanas. A ele, que viajara pelos confins do Oriente, que era versado em desertos, cuja areia era a poeira dos mortos, subitamente veio a ideia de que também a cidade rugindo à sua volta deveria morrer um dia como tantas capitais... morreram. Ocorreu-lhe quão extraordinário seria o nosso interesse hoje por uma descrição exata de Atenas no tempo dos Ptolomeus, de Roma no tempo dos Césares... Graças a uma inspiração fulminante, que às vezes nos fornece um tema fora do comum, concebeu o plano de escrever sobre Paris o livro que os historiadores da antiguidade não haviam escrito sobre as próprias cidades... A obra de sua idade madura apareceu diante de sua visão anterior.
Maxime du Camp, 1862.

15/10/2012

Contingências

A vida na hora
cena sem ensaio
corpo sem medida
cabeça sem reflexão.

Não sei o papel que desempenho
só sei que é meu, impermutável.

De que trata a peça
devo adivinhar já em cena.

[Wilsawa Szymborska, A Vida na Hora]

   *   *   *

Vê, eu vivo. De quê? Nem a infância nem o futuro minguam...

Inúmera, a existência
transborda-me do coração.

[R. M. Rilke, Nova Elegia a Duíno]

02/07/2012

luta pela lembrança

Meus pensamentos se foram afastando de mim, porém chegado a uma senda acolhedora rechasso os tumultuosos pesares presentes e me detenho, de olhos fechados, enervado num aroma de distância que eu mesmo fui conservando, em minha pequena luta contra a vida. Somente vivi ontem. O agora tem essa desnudez à espera do que deseja, selo provisório que vai envelhecendo sem amor.
Ontem é uma árvore de longas ramarias, e à sombra estou deitado, recordando.
Subitamente contemplo surpreso longas caravanas de caminhantes que, chegados como eu a esta senda, com os olhos adormecidos na lembrança, cantam canções para si mesmos e recordam. E algo me diz que mudaram para se deterem, que falaram para se calarem, que abriram os olhos atônitos ante a festa das estrelas para os fecharem e recordar...
Deitado neste novo caminho, com os ávidos olhos enflorados de distância, cuido em vão de deter o rio do tempo que tremula sobre minhas atitudes. Mas a água que logro conhecer fica aprisionada nos ocultos reservatórios do meu coração em que amanhã terão de submergir minhas velhas mãos solitárias...

Neruda. Para Nascer Nasci, 1981, p. 12.

12/05/2012

degas e valéry: muito além da pintura

É preciso ter uma ideia elevada, não do que se faz, mas do que se poderá fazer um dia; sem o quê não vale a pena trabalhar.
E. Degas


Eis o verdadeiro orgulho, antídoto de toda vaidade.
Como o jogador perseguido por combinações de partidas, assombrado à noite pelo espectro do tabuleiro de xadrez ou do feltro onde as cartas são lançadas, obcecado por imagens táticas e soluções mais vivas que reais, assim o artista é essencialmente um artista.
Um homem que não é possuído por uma presença dessa intensidade é um homem desabitado: um terreno baldio.
P. Valéry (sobre a frase de Degas)

Degas, dança, desenho, 2003, p. 121-122.

03/04/2012

adorniando #2

O CÃO DE SPINOZA ¦ Por ser mediado por conceitos, o conhecimento se aproxima da realidade, como diz Gustavo Bernardo, “mas essa mesma realidade se abre e se afasta assim que tocamos na difusa ponta da sua sombra”. As palavras são sombras das coisas, contudo, nos lembra Stefan Zweig, “toda sombra é filha da luz”. “O conceito de cão não ladra”, provocou Spinoza, mas existe uma “coisa” sem a qual o conceito não haveria: uma coisa que late. Isto quer dizer que o conceito é duplo, e, mais, é dialético: aponta para dentro e para fora, a coisa que tenta representar, fazendo de si próprio alteridade, e, portanto, devir. Sustentar a dialética do conceito em devir significa, de início, levantar-se contra Hegel e a ideia de verdade como identidade entre coisa e conceito. Tão perigoso quanto associar a verdade ao fato é prendê-la na identidade com o conceito, pois, ao fazer isso, o pensamento destrói a si mesmo, ou seja, ao seu caráter essencialmente negativo, e, portanto, crítico. “Pensar é, antes de mais nada, negar”. Não obstante, as contradições da realidade não são solucionáveis através das categorias lógicas. Adorno não propõe uma filosofia sem conceito, o que é inviável, mas filosofia consciente do que é deixado de fora, do além-do-conceito; filosofia que “tira as vendas dos olhos”. O conceito permite pensar o objeto, mas não o esgota nem substitui.

01/04/2012

tempo e experiência

Somos el tiempo. Somos la famosa
parábola de Heráclito el Oscuro.
Somos el agua, no el diamante duro,
la que se pierde, no la que reposa.
Somos el río y somos aquel griego
que se mira en el río. Su reflejo
cambia en el agua dei cambiante espejo,
en el cristal que cambia como el fuego.
Somos el vano rio prefijado,
rumbo a su mar. La sombra lo ha cercado.
Todo nos dijo adiós, todo se aleja.
La memória no acuna su moneda.
Y sin embargo hay algo que se queda
y sin embargo hay algo que se queja.
J. L. Borges.

Somos tempo; nossa matéria é tempo. Mas o tempo é como um rio que flui incessante, em devenir. Sua verdadeira forma não se deixa captar; água que escorre pelos dedos que também não são os mesmos. A miúde, sua verdadeira forma é a não-forma, sua verdade universal e necessária é a ausência de qualquer determinação universal e necessária. Nós, que somos tempo, somos, em essência, a não-essência: cristal que se desforma e transforma com o fogo. "Tudo nos diz Adeus; tudo nos deixa". Cantou Rilke nas Elegias de Duíno: "Tal como o orvalho matinal sobre a erva, o que é nosso evapora-se de nós, como o calor de um prato fumegante".
"A memória não cunha sua moeda". Vivemos a grande era da "morte da experiência", como chamou Benjamin. A presentificação da vida, perda do passado e destruição do futuro, marca nossa existência moderna, incapaz de superar a si mesma, pois se realiza na aparência da não-contradição. O atualizar constante das caixas de e-mail revela o desejo pelo novo que é o mesmo. Efemeridade do tempo que se limita ao Agora. Agora que, soberano e tirano, faz de escravos seus súditos. Eis a alienação do tempo. Existência trágica, pois persegue um tempo vazio; o correr em torno de si mesmo da busca pelo tempo ausente só faz apertar o nó que nos amarra ao Agora e aliena da experiência.

10/12/2011

escrever e a ausência de si

O escritor já não pertence ao domínio magistral em que exprimir-se significa exprimir a exatidão e a certeza das coisas e dos valores segundo o sentido dos seus limites.
Escrever é quebrar o vínculo que une a palavra e o eu.
Escrever é romper esse elo. É, além disso, retirar a palavra do curso do mundo, desinvesti-la do que faz dela um poder pelo qual, se eu falo, é o mundo que se fala, é o dia que se identifica pelo trabalho, a ação e o tempo.
Escrever é o interminável, o incessante.
O escritor pertence a uma linguagem que ninguém fala, que não se dirige a ninguém, que não tem centro, que nada revela. Ele pode acreditar que se afirma nessa linguagem, mas o que afirma está inteiramente privado de si.


Maurice Blanchot

27/07/2010

angustus

O homem caminhava pela estrada.
Pela estrada com pés descalços.
Com pés descalços e a roupa rasgada.
O chapéu do homem fazia sombra.
A sombra a cobrir seu rosto.
Seu rosto ninguém enxergava.


A passagem do homem é um labirinto sem muros.
Dentre unhas e dedos, o vermelho em pó.
Descalças, a n d a r i l h a v a m  
a s  d a t i l o g r a f i a s


Dedo ante dedo; ser anti-ser; pé ante pé.





24/07/2010

sobre medos

"Ah", disse o rato, "o mundo torna-se a cada dia mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra, que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para a qual eu corro". "Você só precisa mudar de direção", disse o gato e devorou-o. (Kafka).


21/07/2010

sobre colecionar borboletas

A nova etapa da consciência musical se define pela negação e pela rejeição do prazer pelo próprio prazer. Assemelha-se tal fenômeno ao comportamento que as pessoas soem manter em face dos esportes e da propaganda. As expressões "prazer artístico" e "gosto artístico" assumiram um significado curioso e cômico. (...) Ainda que alguém se deliciasse com os belos trechos de um quarteto de Schubert ou com um provocantemente sadio "concerto grosso" de Handel, seria catalogado como um defensor suspeito da cultura, bem abaixo dos colecionadores de borboletas. (Adorno).

Clique na imagem para deliciar-se com Handel 

06/07/2010

de passagem #5

Desde cedo desejamos encontrar a nós mesmos. Mas não sabemos quem somos. Só está claro que ninguém é o que gostaria ou o que poderia ser. Daí vem a inveja reles, a saber, daqueles que parecem ter, sim, parecem ser o que cabe a nós. Mas daí vem também a vontade de começar algo novo, algo que começa conosco mesmos. Sempre se procurou viver de acordo consigo mesmo. É dentro de nós que está aquilo que poderíamos vir a ser. Manifesta-se como inquietação de não estar suficientemente definido. A juventude é apenas a manifestação mais visível, mas não a única, desse sentimento. (Ernst Bloch)

[fotografia: Egberto Simoni]

04/07/2010

cotidianidade #2

Ela saiu à rua a procura de um café. Forte. Com pouco doce. Imaginar o perfume dos grãos torrados açoda o cérebro de tal modo que as mãos logo se percebem inquietas. O jornal dobrado não tem o menor sentido se devorado a seco. As notícias têm sabor amargo que logo lembram estar sentada confortavelmente à parte delas. Distanciar-se um pouco para, então, entrar em sutil comunhão, sentindo o quente tocar os lábios e o inigualável gosto do acerbo descer a garganta.

22/06/2010

o mundo é um arsenal de máscaras

A assim chamada imagem interior do próprio ser que trazemos em nós é, de minuto a minuto, pura improvisação. Ela se orienta, se assim podemos dizer, inteiramente de acordo com as máscaras que lhe são exibidas. O mundo é um arsenal de máscaras. Só o homem atrofiado e desolado o busca como simulação em seu próprio interior. Pois nós mesmos somos em geral pobres em imagens. 


18/06/2010

de passagem #3

Acho que todos nós devemos repensar o que andamos aqui a fazer. Bom é que nos divirtamos, que vamos à praia, à festa, ao futebol, esta vida são dois dias, quem vier atrás que feche a porta – mas se não nos decidirmos a olhar o mundo gravemente, com olhos severos e avaliadores, o mais certo é termos apenas um dia para viver, o mais certo é deixarmos a porta aberta para um vazio infinito de morte, escuridão e malogro.
(J. Saramago)