16/10/2010

somos nós os coloristas

Os filósofos costumam colocar-se diante da vida e da experiência como diante de uma pintura, que está desenrolada de uma vez por todas e como inalterável firmeza mostra o mesmo evento: esse evento, pensam eles, é preciso interpretá-lo corretamente, para com isso tirar uma conclusão sobre o ser que produziu a pintura: portanto, sobre a coisa em si, que sempre costuma ser considerada como razão suficiente do mundo do fenômeno. Em contrapartida, lógicos mais rigorosos (…) puseram em questão toda conexão entre o mundo metafísico e o mundo que nos é conhecido: de tal modo que no fenômeno, justamente, a coisa em si não aparece. De ambos os lados, porém, não é levada em conta a possibilidade de que essa pintura – aquilo que agora, para nós homens, se chama vida e experiência – pouco a pouco veio a ser e, aliás, está ainda em pleno vir-a-ser e por isso não deve ser considerada como grandeza firme. (…) É porque nós, desde milênios, temos olhado para o mundo com pretensões morais, estéticas, religiosas, com cega inclinação, paixão ou medo, e porque temos regalado nos maus hábitos do pensamento ilógico, que esse mundo pouco a pouco veio a ser tão maravilhosamente colorido, apavorante, profundo de significação, cheio de alma; ele adquiriu cores – mas somos nós os coloristas: o intelecto humano fez apenas aparecer o fenômeno e transpôs para as coisas suas concepções fundamentais errôneas.

NIETZSCHE. Humano, Demasiado Humano. Cap. I, § 16.

2 comentários:

Anônimo disse...

Prezado Diogo,
seguindo a lógica do texto, se o intelecto humano fez aparecer o fenômeno, isto significa dizer que o fenômeno aparece em diversas facetas de acordo com o intelecto humano que a está fazendo aparecer. Neste ponto estou considerando não o intelecto humano de forma geral, mais o intelecto de cada ser humano. Logo, o fenômeno não seria objetivo, mas subjetivo. Seria uma linha de raciocínio correta ?

Saudações,
Fábio Henrique

Állyssen disse...

O cara já falava isso e hoje que alguns se propuseram a pensar sobre... O (in)constante vir-a-ser é o que é e pode às vezes não ser... rs
Ser poeta é mais fácil que ser filósofo... por isso os admiro (os filósofos), pois eu gosto mesmo é de brincar com as palavras e sugerir o sentido secreto e inventado das coisas (mesmo que eu esteja longe do ser poeta).

Muito bom vir ler Nietzsche aqui! Deixo um beijo! Apareça!

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