08/06/2014

esculpir o tempo

O tempo e a memória incorporam-se numa só entidade; são como os dois lados de uma medalha. É por demais óbvio que, sem o Tempo, a memória também não pode existir. A memória, porém, é algo tão complexo que nenhuma relação de todos os seus atributos seria capaz de definir a totalidade das impressões através das quais ela nos afeta. A memória é um conceito espiritual! [...] Privado da memória, o homem torna-se prisioneiro de uma existência ilusória; ao ficar à margem do tempo, ele é incapaz de compreender os elos que o ligam ao mundo exterior — em outras palavras, vê-se condenado à loucura. [...] 
O tempo não pode desaparecer sem deixar vestígios, pois é uma categoria espiritual e subjetiva, e o tempo por nós vivido fixa-se em nossa alma como uma experiência situada no interior do tempo.
Andrei Tarkovski.

06/06/2014

efeito de sujeito

O sujeito não é mais do que um rápido efeito que se perde em seguida, ele não goza de nenhuma constância, ao contrário do eu que é imagem enganosa surgida no espelho como a promessa, nunca inteiramente cumprida, de permanecer sempre a mesma. O sujeito é efeito de um ato que se dá numa trajetória, num circuito que necessita do outro, o convoca e só com ele se completa.
Tania Rivera.

08/05/2014

a noite

O que se passa na noite? De um modo geral, dormimos. Pelo sono, o dia serve-se da noite para apagar a noite. Dormir pertence ao mundo, é uma tarefa, dormimos de acordo com a lei geral que faz depender a nossa atividade diurna do repouso de nossas noites. Chamamos o sono e ele vem; existe, entre ele e nós, como que um pacto, um tratado sem cláusulas secretas e, por essa convenção, é entendido que, longe de ser uma perigosa força enfeitiçadora, domesticada, o sono se fará o instrumento de nossa potência de agir. Damo-nos a ele, mas como o senhor se confia ao escravo que o serve. Dormir é a ação clara que nos promete o dia. Dormir, eis o ato extraordinário de nossa vigilância. Dormir profundamente só nos faz escapar ao que existe no fundo do sonho. Onde está a noite? Não há mais noite.
M. Blanchot. O Sono, A Noite.

de passagem #18

O poeta é senhor da história, podendo se aproximar dos acontecimentos tanto quanto queira.
G. E. Lessing.

02/04/2014

revolução, despossessão, diferença

Se não há revolução sem transformação de valores sobre os quais o Ocidente se construiu, é contra a lógica que é preciso se opor, é sobre as palavras que é preciso agir. A ação social não basta. Liberar-se da lógica imposta pelo uso cotidiano da linguagem é radicalizar a revolução até a despossessão de si (despossessão dos costumes e das práticas próprias ao Ocidente) que desfaz o núcleo de todas as identidades.

Shoji Ueda

A revolução exige este trabalho de si sobre si que insere a diferença na identidade.


M. Crépon, Les Promesses du Langage.

30/03/2014

imagens dialéticas

Regina Silveira
#1 A imagem dialética é uma imagem que lampeja. É assim, como uma imagem que lampeja no agora da cognoscibilidade, que deve ser captado o ocorrido. A salvação que se realiza deste modo - e somente deste modo - não pode se realizar senão naquilo que estará irremediavelmente perdido no instante seguinte. 

#2 A especificidade da experiência dialética consiste em dissipar a aparência do sempre-igual - e mesmo da repetição - na história. A experiência política autêntica está absolutamente livre dessa aparência.

#3 Os fenômenos são salvos de quê? Não apenas - nem principalmente - do descrédito e do desprezo em que caíram, mas da catástrofe, que é representada muitas vezes por um certo tipo de tradição, sua "celebração como patrimônio". - São salvos pela demonstração de que existe neles uma ruptura ou descontinuidade [Sprung], - Existe uma tradição que é catástrofe.

W. Benjamin. Passagens, N 9.

29/03/2014

crítica

A verdadeira operação crítica surge [da] união radical entre destruição e salvação: ao arrancar as palavras e as obras do contexto lenitivo que, às vezes o próprio autor, e, quase sempre, a história [...] tradicional se apressam em lhes emprestar, a crítica quebra sua unidade factícia e, simultaneamente, expõe sua força de estranheza e subversão.
J. M. Gagnebin.

07/03/2014

Ruína

Um monge descabelado me disse no caminho: “Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. Minha ideia era de fazer alguma coisa ao jeito de tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas de um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro. (O olho do monge estava perto de ser um canto). Continuou: digamos a palavra AMOR. A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo”. E o monge se calou descabelado.
Manoel de Barros.

19/02/2014

de passagem #17

A consciência-de-si é a reflexão, a partir do ser do mundo sensível e percebido; é essencialmente o retorno a partir do ser-Outro.
Hegel, Fenomenologia do Espírito I, p. 120.

26/12/2013

de passagem #16

Exatamente por não ser livre e ter a consciência de que esse fato o torna incompleto é que o homem arquiteta, nos atos de pensar o futuro, um ser social e individual ainda não realizado, mas que serve de orientação às lutas que ele empreende contra o sistema que existe agora e o domina exatamente para não deixá-lo ser livre, ou seja, para que, numa série de ações radicalmente transformadoras, conquiste um dia sua humanidade e assim se sinta completado.
Moacyr Felix. Algo a Dizer, 1992.